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Sexo e água benta

Sexo e água benta

O sacramento da comunhão é dos momentos mais penosos para os católicos recasados. Porque simboliza um apedrejamento psicológico e de exclusão a que são votados por um casamento anterior que falhou. É disso que estamos a falar.

A exortação do Papa Francisco na encíclica "Amoris Laetitia" (A Alegria do Amor), em que convida os padres a ouvir os recasados e a integrá-los, não foi mais do que a evolução normal de uma Igreja que se quer inclusiva e aberta, discutida há 50 anos no Concílio Vaticano II.

Mas a sexualidade é um problema mal resolvido na Igreja. A orientação do cardeal-patriarca de Lisboa propondo aos católicos recasados uma vida sem a prática de relações sexuais não só vem carregada de um conservadorismo que se deve combater, como transforma o casamento numa troca sexual, esquecendo todas as dimensões de uma vida em comum.

É o regresso à Idade Média em que o prazer era negado ao matrimónio.

Ao mesmo tempo, deixa a descoberto a confrontação entre a Igreja conservadora, aquela que entende que a resistência a dois mil anos de turbulência advém de fechamento histórico progressivo, portanto, o último reduto de segurança em mundos instáveis, e aquela que vê o homem na sua espiritualidade plena.

O problema é que a Igreja tem vindo ao longo dos séculos a cometer o erro de olhar pouco para o indivíduo com fé e demasiado para a abstração do pecado. E a ganhar, particularmente no plano moral, uma frieza que não é evangélica. Que não segue o exemplo de Cristo, que denunciava o pecado, mas sem nunca afastar os pecadores. E a sua mensagem está carregada de encontros de uma carga simbólica tremenda. Do cobrador de impostos que roubava o povo, à mulher adúltera, são inúmeros os diálogos ricos que terminam sempre com acolhimento e perdão. Ou as parábolas poderosas, como a do filho pródigo e da ovelha perdida, em que não há hesitação sobre o abraço devido a quem falha.

Acolher um recasado pedindo-lhe abstinência é recusar uma nova relação de amor. É desvalorizar o amor e a sexualidade. E se se percebe, mas não entende, a resistência da Igreja ao divórcio, quando o sacramento do casamento é indissolúvel, compreende-se menos que falhe no seu dever de atender ao contexto social e ao sofrimento que uma visão rígida desta matéria tem causado a tantos católicos.

Felizmente, a riqueza da Igreja está na forma individual como cada um dos fiéis vive a sua experiência de fé, ainda que partilhada com outros. E também como cada padre e cada bispo acolhem as suas comunidades, pequenas ou grandes. É esse o verdadeiro segredo.

DIRETOR-EXECUTIVO

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