Opinião

Uma política nesta Páscoa

Uma política nesta Páscoa

Talvez hoje, por uma vez nestes dias, possamos oferecer algo que simbolize verdadeiramente o renascimento. Não oferecer aos outros. Mas a nós. Para sermos nós um exemplo que seja perpetuador.

Para crentes e não crentes, a Páscoa oferece uma perspetiva de reconstrução e renovação que nem sempre valorizamos, impregnados que estamos de uma tradição judaico-cristã excessivamente centrada na culpa e no cinzentismo da Sexta-Feira Santa.

A falha é a condição humana, mas o que temos de distintivo é a capacidade de a todo o momento a reconhecer e superar. Aplicando essa força da esperança e da reconstrução a todos os setores da nossa vida em sociedade.

Se conseguirmos olhar de forma despojada e sem preconceitos para aquilo que historicamente sabemos da vida de Jesus, há no seu percurso uma mensagem política de rutura com os poderes instituídos. Era um agitador, com um sentido de justiça que chega a ser agressivo. Escolhendo sempre os mais fracos. As mulheres, à época sem espaço nem papel, os pecadores, os doentes e marginalizados.

Dois mil anos depois, recordar a sua história é reconhecer alguém que não teve medo de provocar, para através da rutura construir união. É renovar o compromisso da democracia como sistema alicerçado no bem comum.

Num ano eleitoral, com os cenários macroeconómicos a traçarem perspetivas de abrandamento, com a incerteza do Brexit a ameaçar a coesão e o projeto europeu, com os movimentos migratórios a desafiarem a nossa capacidade de integração e de acolhimento do outro, com os populismos a assaltarem os nossos dias, nada é tão mobilizador como a convicção de que a política só pode ter no centro as pessoas.

O que pode parecer elementar, mas implica tantas vezes virar ao contrário programas eleitorais carregados de slogans e números, mas com muito pouca gente dentro.

Do que verdadeiramente precisamos nestes tempos de incerteza e de apelo aos instintos mais básicos é de renascer. Talvez hoje possamos nós oferecer-nos o bom senso de que tantas vezes andamos alheados.

*Diretor

Imobusiness