Opinião

Há algo de errado nisto tudo!

Há algo de errado nisto tudo!

Tenho sempre dificuldade em entender a maioria das greves. Durante 35 anos de vínculo ao Estado, registo um único dia de greve, algures durante o ano de 1994: a então ministra da Educação, pessoa de bem, mas sempre com uma gritante falta de jeito, resolveu insultar os docentes universitários, a propósito das suas possíveis motivações. No dia seguinte, fiz questão de registar a minha adesão à greve, permanecendo, no entanto, a trabalhar durante todo esse dia. Não gosto desta forma reivindicativa sistemática de um qualquer direito. Não tenho grande apreço pela atividade dos sindicatos, onde nunca estive inscrito, ainda menos pelas suas ligações cruzadas aos partidos de uma esquerda instável e cada vez mais difusa.

É por isso difícil aceitar a forma como a classe dos motoristas de transporte de matérias-primas perigosas tem formulado o seu caderno reivindicativo. Mas tentei perceber o que estará em causa, sendo que uma entrevista de um motorista profissional me deixou preocupado: a regulação existente apenas lhe permite um dia em casa com a família em cada quinze dias! Os restantes são passados nas estradas da Europa. A partir de um salário-base inferior a 700 euros, o vencimento é composto por trabalho suplementar, subsídios de risco e de trabalho noturno. Por estes 28 dias de trabalho completo recebe então um pouco mais do que 1000 euros líquidos. Finalmente, para as três refeições diárias e dormida, tem um suplemento de 35 euros em ajudas de custo, sendo óbvio que este valor o obriga a dormir no próprio camião, bem como a um exercício impossível de suporte às outras despesas. Estou por isso chocado com a campanha instalada nas redes sociais, feita através da manipulação de um recibo de vencimento de um destes profissionais. Alimentada em muitos casos por responsáveis políticos, de quem se deve esperar sempre algum sentido ético, por mínimo que seja.

Se somarmos a tudo isto uma gigantesca operação de marketing político e o suplemento de encenação mediática instalado, então percebemos que haverá mesmo algo de errado nisto tudo!

*Prof. catedrático, vice-reitor da UTAD