Opinião

Doentes desamparados

A porta do bloco ambulatório daquela unidade de saúde privada abriu devagar. De lá de dentro, sai uma senhora com alguma idade, manobrando a custo a sua própria cadeira de rodas. Está sozinha. Já cá fora, fala ao telemóvel. Quando desliga, chora compulsivamente.

Aproximei-me para perguntar se precisava de alguma coisa. Abana a cabeça. Diz-me que estava a sair de uma intervenção cirúrgica, mas soubera, naquela chamada telefónica, que a sua irmã, doente oncológica, entrara em coma. Fiquei alguns minutos a ouvi-la. Ao final do dia, quando me sintonizei com as notícias, a greve cirúrgica dos enfermeiros pareceu-me ainda mais incompreensível.

Não nos conhecíamos de lado de nenhum. Abeirei-me daquela mulher, porque me chamou a atenção o seu choro escassos minutos depois de ter saído de um ambulatório e ali fiquei sentada em frente à sua cadeira de rodas. A amplitude da sala e as poucas pessoas que aí permaneciam abriam espaço para uma conversa mais privada. A sua história clínica era longa e agravada pelo facto de habitar um território periférico, portanto, com escassos cuidados de saúde, nomeadamente em certas especialidades. Ainda adolescente, uma doença degenerativa agarrou-a a umas canadianas e, mais tarde, a uma cadeira de rodas. Em idade adulta, combateu um cancro na bexiga e, partir daí, multiplicaram-se efeitos secundários. Agora, a visão reduzia-se drasticamente. A cada doença grave, viu-se sempre obrigada a percorrer mais de cem quilómetros para procurar soluções num hospital público maior ou numa clínica privada. Era o caso. E ainda bem, disse-me. Porque, argumentou, a greve dos enfermeiros estava a pôr tudo de pernas para o ar. O seu saber fazia-se de experiência. Dura.

Em casa, deixara a sua irmã em luta contra um cancro já com metástases em vários órgãos. Vivem juntas. "Uma vai empurrando a outra", conta-me. No entanto, as notícias que chegavam por telefone não auguravam dias bons. O estado de saúde da irmã agravara-se bastante, mas, mesmo assim, continuava em sua casa. "Os hospitais públicos não dão resposta a isto", diz-me, segurando a muito custo as lágrimas. "Não pode chorar", contraponho com determinação, depois de saber que saíra de uma operação oftalmológica. O cirurgião tinha recomendado cuidado com os olhos. "Mas como posso eu não chorar? A minha irmã está muito mal! Somos o amparo uma da outra". Não consegui encontrar nada para dizer e imaginei que, naquele estado pós-operatório, também fosse incapaz de ler nos meus olhos uma solidariedade que, naquele momento, eu não sabia traduzir por qualquer palavra...

Quando regressei à atualidade noticiosa, centrei-me de modo particular nas peças sobre a greve dos enfermeiros. Segui com atenção o que disse o presidente da República, o primeiro-ministro, a ministra da Saúde e o líder do PSD. Revi-me nos reparos que todos fizeram a uma greve que está a paralisar os blocos cirúrgicos dos principais hospitais do país e a atrasar muitas operações, boa parte com um certo grau de urgência dado o estado de saúde dos pacientes. Os enfermeiros, como outras classes profissionais, têm o direito à greve, mas esse direito não pode, de forma alguma, pôr em causa a vida dos doentes. E isso está a acontecer.

Poderemos perspetivar este problema pelo lado dos profissionais de saúde. É um facto que os enfermeiros são mal remunerados, nomeadamente quando comparados com os médicos. No entanto, uma greve não pode prolongar-se por tantos dias. Em Portugal, os blocos cirúrgicos dos principais hospitais estão a funcionar de forma intermitente por causa de uma paralisação dos enfermeiros que parece não ter fim à vista. Como pode isto ser? Governantes e sindicatos têm de se sentar à mesma mesa e negociar. Em nome dos pacientes.

Professora Associada com Agregação da Universidade do Minho