Opinião

Média em crise, democracia em risco

Média em crise, democracia em risco

O presidente da República foi assertivo no diagnóstico: em Portugal há uma situação de emergência nos média. Terá escolhido ser mais retórico na pergunta formulada: o Estado não tem a obrigação de intervir nos média?

É inquestionável que os meios de Comunicação Social precisam de outras políticas para o setor a fim de se erguerem de uma crise onde se afundaram há alguns anos. Que tem retirado qualidade ao jornalismo, vitalidade ao espaço público e força à democracia. Não será isso suficiente para encarar o problema como uma prioridade nacional?

Há três anos perguntei a 100 jornalistas portugueses quais os maiores constrangimentos que sentiam na sua profissão. Quase metade (42 por cento) falou-me do peso do estrangulamento económico das empresas jornalísticas onde trabalham. É aí que deveremos procurar as atuais censuras, transpostas na diminuição de recursos e na limitação dos trabalhos. Hoje os jornalistas têm de fazer mais com menos e vivem asfixiados dentro de redações donde saem com dificuldade, porque isso implica tempo (que deve ser rentabilizado para fazer o maior número de peças possível) e dinheiro (que não há). Nos dias que correm, é difícil ir até ao fim da rua ou até ao fim do Mundo à procura de uma boa estória. Neste depressivo ambiente, ressalta ainda o pânico de perder o emprego. Porque todos sabem que o mercado está esgotadíssimo e não há margem para contratos, principalmente se isso significar bons salários. Optei por solicitar esses depoimentos por escrito e devo confessar que fiquei perplexa com a velocidade com que as respostas foram chegando, como que querendo significar que a classe jornalística sentia necessidade de falar disto, porque isto, os constrangimentos, é uma espécie de manada de elefantes numa loja de porcelana. Que deve de lá sair quanto antes. Para bem de todos. Reuni todos esses textos num livro que intitulei "Jornalista: profissão ameaçada". E é nesse estado que continua a profissão passados estes anos.

Ao colocar a possibilidade de os média serem alvo de "uma intervenção transversal, a nível parlamentar, que correspondesse a um acordo de regime", Marcelo Rebelo de Sousa destacou um problema que vem sufocando os média nacionais e regionais. Que necessitam de uma espécie de pacto de regime que integre políticas transversais. Enumeremos algumas.

As empresas jornalísticas precisam de benefícios fiscais mais alargados; os consumidores de informação (paga) deveriam ter nessa compra maiores compensações nos impostos e dever-se-ia pensar em fortes incentivos para quem financia os média. Por seu lado, as empresas e instituições públicas (sobretudo as escolas) deveriam fazer constar nos seus orçamentos verbas para a subscrição de conteúdos noticiosos (acesso a sites e assinatura de jornais impressos ou digitais). Também seria imprescindível pensar a literacia mediática para públicos diferenciados. É urgentíssimo introduzir essa aprendizagem nos curricula dos ensinos Básico e Secundário, mas também é importante transportar esses conhecimentos para outras populações que pouco sabem sobre a informação que (não) consomem. Importa igualmente atender de forma particular aos média regionais, muitos dos quais estão hoje dependentes das vontades políticas do poder do local e isso gera naturalmente algumas perversidades...

Marcelo Rebelo de Sousa teve o mérito de agendar a crise dos média como tema de debate público. Agora precisa de fazer mais. Deste presidente da República espera-se uma ação efetiva no sentido de ajudar a promover políticas que tornem o jornalismo mais sustentável do ponto de vista financeiro e o dotem de mais qualidade nos conteúdos que produz, esperando-se que tudo isso se cumpra de forma ampla, participativa e plural.

*PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO