Opinião

O jornalismo precisa de incomodar

O jornalismo precisa de incomodar

O jornalismo convencional é uma das maiores ameaças para uma democracia madura, atenta ao bem público... Por muito que custe aos poderes dominantes e às fontes oficiais, os jornalistas devem ser incómodos. Nem sempre assim é. E isso não nos traz boas notícias.

Por vezes, o jornalismo afasta-se do pulsar da realidade. Nas últimas eleições presidenciais norte-americanas, Donald Trump foi inicialmente levado pouco a sério, passando por um nível de escrutínio baixo. E todos sabemos o resultado disso. No referendo sobre uma eventual saída do Reino Unido da União Europeia, os media estavam convictos de que os britânicos eram fiéis a uma Europa unida e quase ninguém discutiu o que aconteceria em caso de saída... Ao assumirem determinados cenários, os jornalistas ficam condicionados nas fontes que escolhem, nas perguntas que fazem e nos ângulos que criam. E nós, consumidores de informação, seguimos discursos noticiosos que nem sempre refletem a realidade.

Há umas semanas, a revista britânica "New Statesman" fixava alguns dos principais pecados do jornalismo atual, nomeadamente aquele que se desenvolve no campo político. Apontava a falta de formação dos jornalistas em finanças e economia, quando a maior parte das políticas públicas se verga a constrangimentos financeiros. Criticava o modelo neutral que a classe apregoa seguir, quando se torna imperioso assumir interpretações e, sobretudo, olhar para fora da janela para ver além daquilo que as fontes querem mostrar. Censurava a subordinação às instituições políticas que afasta as redações das pessoas reais. Lembrava que hoje o jornalismo prefere confrontos pessoais à discussão de ideias. E sublinhava a dependência que os jornalistas têm das redes sociais, que conduz muitas vezes a uma agenda enviesada relativamente àquilo que acontece.

Não é fácil fazer jornalismo hoje. As fontes estão cada vez mais profissionalizadas, principalmente na arte da manipulação; e os cidadãos não se mostram disponíveis para pagar a informação que consomem. Todos os dias as redações procuram fazer uma espécie de quadratura do círculo. Às vezes não conseguem sair das configurações esperadas, outras surpreendem-nos com factos que captam a nossa atenção. Por norma, são notícias incómodas, mas vitais para o funcionamento de uma democracia.

Nas últimas semanas, o "Jornal de Notícias" tem avançado uma noticiabilidade que discute as incompatibilidades dos políticos. É um ponto relevante. Há outros, decerto. É esse jornalismo que escrutina todos os poderes que precisamos de ter.

* PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO