Opinião

O poder do jornalismo

O poder do jornalismo

O jornalismo rigoroso nos factos que mediatiza, escrutinador dos poderes que vigia, aprofundado nos contextos que abre faz-nos falta. Muita falta. Acontece que esse jornalismo, que é vital para uma democracia mais consolidada e para uma cidadania mais dinâmica, encontra hoje inúmeros obstáculos: empresas jornalísticas em crise e com pouca folga para apostar em investigações que exigem tempo e recursos; fontes de informação cada vez mais profissionalizadas no controlo dos jornalistas; e um público anestesiado perante temas que deveria ter interesse em conhecer. O caso Raríssimas faz-nos perceber que é preciso voltar a valorizar o jornalismo. Para que os abusos sejam travados.

Não é fácil fazer jornalismo de investigação. Por causas diversas. Porque é muito dispendioso e hoje as redações estão depauperadas; porque necessita de jornalistas com experiência e destemidos e hoje a classe vive de forma precária e está já pouco treinada no aprofundamento de temas delicados; porque pressupõe esferas de poder familiarizadas com a prestação de contas daquilo que fazem e hoje os detentores de cargos fecham-se em "bunkers" avessos a qualquer exercício de transparência; porque exige uma opinião pública bem informada e exigente e hoje os cidadãos parecem viver adormecidos perante aquilo que tem efetivo interesse público. Está tudo mal.

Esta semana, a TVI ampliou dois temas de inegável pertinência jornalística. Que tiveram um enorme impacto. O caso da associação Raríssimas mostra aquilo que parece ter sido uma gestão abusiva de dinheiros públicos e cumplicidades que serão do domínio do inverosímil. Não será uma situação isolada, mas é denunciada com provas documentais consistentes e com depoimentos bem identificados. E nisso é exemplar. Acompanha-se o trabalho da jornalista Ana Leal sempre com esta interrogação: como foi possível ninguém ter travado tais abusos? Já a série "Segredo dos Deuses", da autoria de Alexandra Borges e de Judite França, parece pertencer a um ambiente bem longínquo tal o horror presente na desconstrução de uma rede de adoções ilegais de crianças portuguesas levadas para o estrangeiro por bispos da IURD. Mais uma vez, a mesma interrogação: que país é este, o nosso, que permite que isto aconteça, desta vez envolvendo as margens sociais mais frágeis?

Olhadas do conforto do nosso sofá, estas reportagens perturbam, revoltam, entristece-nos. Mas deveríamos ir mais além destes sentimentos que o tempo desvanecerá. Estes trabalhos jornalísticos, pela gravidade dos factos que apresentam, exigem que se apure tudo de forma inequívoca. E rápida. Haverá, certamente, quem atire para o meio destes processos queixas de diferente ordem. Por exemplo, de violação da privacidade. Até agora, o discurso jornalístico não rasgou gratuitamente territórios da intimidade dos visados. No caso da Raríssimas, as esferas pública e privada, a determinada altura, sobrepõem-se.

Acrescente-se ainda que, em qualquer caso de investigação jornalística, o repórter não faz o seu trabalho de forma isolada. Há fontes, muitas vezes anónimas, que vão canalizando informação relevante e comprometedora. Todos esses interlocutores são próximos dos visados e, por vezes, as denúncias pertencem a pessoas imprevisíveis. Que, ao longo do tempo, parece terem sido os mais fiéis, mas, na sombra, lá foram urdindo uma teia de elementos que depois se revelam mortíferos. E que assumem uma enorme utilidade em qualquer investigação jornalística. Porque não há jornalismo sem fontes. Embora estas, quando visadas daquilo que se noticia, se mostrem muito hostis a perguntas incómodas. Isso é normal, mas já não será tolerável qualquer tentativa de amedrontamento ou de controlo daquilo que se quer saber.

Hoje, mais do que nunca, precisamos de um jornalismo livre de amarras, que exija aos diversos poderes exercícios de "accountability" e que não se atemorize perante ameaças. Para que esse jornalismo prospere, há que consolidar redações e criar públicos ávidos de informação relevante.

*PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO