Opinião

Quem valoriza os professores?

Quem valoriza os professores?

Os professores não são uma classe apreciada. Os alunos não estimam quem os ensina e os pais pouca importância atribuem àqueles que conduzem, ao longo dos anos, a educação dos seus filhos. Os governantes também não lhes prestam muita atenção. Nem os partidos políticos. No espaço mediático, são regularmente notícia pelas greves que promovem. E nunca são parte do país que é chamado a dizer o que pensa sobre o rumo de uma sociedade que todos os dias ajudam a construir, a partir das suas escolas.

Talvez sejam excessivas as atuais exigências dos professores para um Orçamento do Estado que procura equilibrar a despesa pública. Na verdade, todos sabem que os ministérios da Educação e, sobretudo, o das Finanças não terão muita margem de manobra para ir satisfazendo imposições de aumentos salariais, mas também ninguém ignora que o Governo não quererá afrontar, nesta altura, os sindicatos. Por isso, esta fase será adequada para negociações que conduzam a algumas cedências. Todavia, o problema de fundo continua por resolver: a dignificação da carreira docente. Que não passa apenas por atualizações remuneratórias.

Ser hoje professor é desgastante. Antes de se fixarem numa determinada escola, os docentes fazem um extenuante e repetitivo périplo pelo país real, com consequências nefastas para a qualidade do ensino. Quem está de passagem por uma escola não investe em projetos de médio prazo. Todos sabem isso. Normalmente, são os estabelecimentos de ensino periféricos que integram um corpo docente mais flutuante, ou seja, as instituições que recebem alunos com carências económicas e socioculturais mais expressivas são aquelas onde os professores menos anos aí permanecem, sendo, portanto, difícil construírem planos pedagógicos sólidos. Eis como se acentuam os desequilíbrios a partir de idades muito precoces.

Não se pense, porém, que as escolas com uma equipa estável estão imunes a problemas. Não estão. O envelhecimento dos professores carrega em si a dificuldade de saber ensinar conteúdos mais consistentes com um tempo em que tudo muda muito depressa. Vamos a um exemplo. Todos nós estamos conscientes de que é fulcral dotar os mais novos de ferramentas de leitura crítica dos média. E isso deve ser um trabalho da escola. Quem estará, pois, habilitado para promover essa literacia dentro da sala de aula? Para discutir aquilo que é noticiado pelos jornais, transmitido pela rádio e TV e veiculado pelo universo digital, particularmente pelas redes sociais, é preciso, pelo menos, conhecer como funcionam esses universos, de que modo se constroem aí os conteúdos e qual o respetivo impacto ao nível do consumo... Alguém ensinou isso aos professores? Convém lembrar que ninguém ensina (bem) aquilo que não sabe...

Falemos agora das perceções sociais que hoje são construídas à volta dos docentes. Outrora olhada com deferência, esta classe é agora desvalorizada pelos alunos e seus pais. Dentro da sala de aula, é frequente haver graves problemas de disciplina que colocam em causa o ensino-aprendizagem que é suposto promover. Em vez de preencherem o tempo com as matérias fixadas por um programa curricular, muitos professores gastam parte do período letivo a pedir à turma para não ter conversas paralelas, para não enviar SMS, para não consultar o WhatsApp ou, simplesmente, para não se mostrar apática em relação a uma dinâmica que, muitas vezes, é apenas criada pelo docente. É desolador tamanho desinteresse. Em casa, os pais também não se constituem como uma contracorrente a este tipo de comportamento. E isso ainda é mais preocupante.

Por estes dias, Governo, partidos políticos e sindicatos da educação vão centrar o seu discurso na progressão (ou não) dos professores com base na contagem de todo o tempo de serviço prestado nos últimos anos de congelamento das carreiras. Convém não esquecer que debatemos aqui uma parte daquilo que consome a classe docente, porque o problema de fundo está ainda por discutir: a qualidade do ensino-aprendizagem e a valorização dos professores. Nisto ainda ninguém se meteu a sério.

* PROFESSORA ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO MINHO