Opinião

Mas era o meu pai

"O meu querido Pai faleceu, tinha 85 anos, mas era o meu Pai. Aguardava uma cirurgia no seu hospital e morreu à espera".

A carta não era uma lista de acusações e não acabava com a ameaça de um processo jurídico. Era o testemunho de uma filha que se sentia triste e acreditava que, se o pai tivesse sido operado, ainda estaria vivo.

Consultei o processo clínico. Encontrava-se dentro do denominado "tempo máximo de resposta garantido", que pretende assegurar um período clinicamente adequado para se intervir. Estava agendado para ser operado em breve. Tudo se encontrava conforme, todos os passos administrativos cumpridos, impoluto o procedimento. Mas o doente faleceu. Não sei se teria sobrevivido se tivesse sido operado, mas não é esse o ponto.

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Este tipo de cartas segue normalmente, de forma fria e automatizada, para o Gabinete do Cidadão, para responder ao "requerente". Hesitei, mas resolvi ligar. Ficou admirada. Foram alguns minutos pesados. A filha não pretendia criticar o hospital, onde vim a saber que também é seguida e com boa apreciação. Queria apenas desabafar, afinal era o seu pai.

Das várias dimensões da saúde, o acesso é a que os utentes mais valorizam. Basta ler o relatório de gestão das reclamações da Entidade Reguladora da Saúde. Os estudos demonstram que o maior fator de crescimento na adesão a seguros de saúde é a confiança de uma resposta atempada, mais do que questões de hotelaria ou conforto. O acesso sempre foi a base do SNS, a garantia de que todos eram tratados por igual, em função da gravidade da doença. A falha neste domínio provoca iniquidade, a exclusão dos mais desfavorecidos.

De acordo com o portal da transparência do SNS, em março, aguardavam cirurgia cerca de 215 mil doentes. Noutras áreas públicas temos opções, como vimos recentemente na pandemia. Podemos estender o prazo de validade do cartão de cidadão, protelar a audiência no tribunal, suspender o exame na escola. Na saúde, adiar tem um preço.

Por isso, a necessidade de políticas consistentes que valorizem o desempenho dos profissionais e promovam a organização das instituições, que favoreçam acordos com parceiros públicos, privados e sociais. Estratégias em que o essencial sejam as pessoas. Não deixar ninguém para trás, mais do que retórica, implica um trabalho especializado, num sistema complexo, que requer os mais competentes. Na saúde, mais do que voluntarismo, precisamos de profissionalismo.

Já foi há algumas semanas, mas ainda não esqueci aquela voz. Algures sinto que falhei.

Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar Universitário de S. João

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