Opinião

Siga a linha rosa

São 22.43 horas de uma quarta-feira. Admirado por permitirem estacionar gratuitamente. À entrada do edifício, o segurança, meio ensonado, verifica o pedido de exame do avô. Explica que deve seguir a linha rosa no chão e que também pode entrar. No hospital reina um estranho silêncio. Corredores vazios. Ao longe, uma profissional vestida de verde em passo apressado.

A placa indicando Ressonância Magnética (RM) está bem visível e dentro uma sala de espera tranquila. A secretária, sentada ao balcão, pergunta o nome. Foi a mesma que ligou ontem a confirmar a hora do exame. São atendidos em menos de 10 minutos. Aguarda na sala enquanto o avô faz o exame. A televisão mostra um jogo de futebol. Som abafado. Ninguém liga ao relato, enquanto mexem nos telemóveis.

Tudo decorre de forma rápida. O avô retorna em passo lento. Vem com ar feliz. Apesar dos seus 82 anos, está muito bem. Questiona se o resultado estará pronto para a semana, quando tem uma consulta de neurocirurgia. A secretária abana a cabeça, sorrindo. Sim, estará disponível no sistema de informação. Uma noite diferente, que dará conversa para toda a semana.

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Este episódio, real, não é de um filme, de uma clínica nos EUA, nem de um hospital privado em Portugal. Mas de uma instituição hospitalar do SNS.

Os equipamentos pesados são limitados em número e as necessidades crescentes. Não havia verbas para investimento. A decisão foi adquirir um aparelho em leasing e abrir os três equipamentos de RM, das 20-24 horas todos os dias de semana, e das 8-20 horas aos fins de semana, em produção adicional. Serão casos muito pontuais as unidades que, na Europa, realizam exames programados às 23.30 horas de um dia de semana ou ao domingo à tarde.

Com esta abordagem, conseguiu-se aumentar a acessibilidade e a satisfação dos doentes, disponibilizando horários que evitam faltar ao emprego. A atividade para além das horas normais de funcionamento, aumenta a produtividade promove melhores remunerações para os profissionais, associadas ao número e complexidade dos exames realizados, constituindo um incentivo para a sua fixação e motivação. O SNS poupa, rentabilizando os custos fixos e reduzindo a despesa associada, caso realizasse no exterior.

A gestão não é melhor por ser pública ou privada. Depende da competência, da organização e do planeamento. Não é preciso constituir uma comissão, elaborar um plano de contingência, aguardar por diplomas legislativos, ou criar novos patamares de burocracia. Simplesmente promover a autonomia e qualificar a despesa.

*Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar Universitário de S. João

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