Opinião

A desvalorização da mulher pela Igreja

A desvalorização da mulher pela Igreja

A Igreja ainda terá de caminhar muito para conseguir dar à mulher o mesmo destaque que Jesus lhe daria hoje. E é preciso ter em conta que ele o fez numa cultura bem mais machista do que hoje.

Jesus aceitou que mulheres o acompanhassem. Acham alguns que era só para desempenharem tarefas domésticas. Ao longo do Evangelho, as mulheres que procuram Jesus habitualmente são rejeitadas e criticadas pelos homens. Ele, porém, acolhe-as e acaba por as apresentar como exemplo.

Veja-se o caso da pecadora arrependida (Lc. 7, 36-50), que tem a ousadia de se aproximar do Mestre e de lhe lavar e beijar os pés. É criticada por Simão, o fariseu anfitrião de Jesus - mas ele enaltece os seus gestos de afeto e amor. Maria, a irmã de Marta e de Lázaro, é louvada por se sentar aos seus pés e acolher a sua palavra (Lc. 10, 38-42). Um Mestre de Israel não dava conversa às mulheres: Jesus estabelece diálogo com a samaritana e até discute teologia com ela (Jo. 4, 1-42). E confia a Madalena a missão de anunciar a Ressurreição. (Jo. 20, 17-18)

Hoje, muitos na Igreja valorizam o papel das mulheres no arranjo dos altares ou na limpeza das toalhas, mas ficam incomodados quando elas revelam ter uma melhor formação teológica e se atrevem até a criticar as suas homilias. Uma reportagem denunciou que muitas religiosas são tratadas como escravas por bispos e cardeais. E não foi numa publicação qualquer. Trata-se da "Donne Chiesa Mondo" (Mulheres Igreja Mundo), um suplemento mensal do "L"Osservatore Romano", o jornal oficial da Santa Sé.

O Papa Francisco tem apelado à valorização da mulher no Mundo e na Igreja. Tem também denunciado a sua discriminação e os maus-tratos que esta continua a sofrer. "Preocupa-me que continue a persistir uma certa mentalidade machista, inclusive nas sociedades mais avançadas, nas quais se consumam atos de violência contra a mulher", escreve o Papa no prólogo do livro "Diez cosas que el Papa Francisco propone a las mujeres", que será lançado em Espanha, no próximo dia 7, pelas publicações Claretianas.

Nesse texto ele manifesta igualmente a preocupação "que, na própria Igreja, o papel de serviço a que todo o cristão é chamado, deslize, no caso da mulher, algumas vezes para papéis que são mais de servidão do que de verdadeiro serviço". O Papa sabe bem como a mulher é tratada na Igreja - e até bem perto dele... E não foi a reportagem publicada no "L"Osservatore Romano" que o fez despertar para esta realidade.

Por vezes, não são só os homens e os clérigos que discriminam e menosprezam as mulheres na Igreja. Algumas delas também o fazem. No referido suplemento narra-se o caso de um reitor de uma universidade que ficou surpreendido "com a capacidade intelectual de uma freira que tinha uma licenciatura em Teologia. Ele queria que continuasse os seus estudos, mas a superiora opôs-se porque, segundo ela, as irmãs não se devem tornar orgulhosas".

A Igreja é perita em humanidade. Tem ensinamentos preciosos sobre a promoção humana e uma extraordinária Doutrina Social, em linha com a mensagem do Evangelho. Esta, como se viu, contempla a defesa do papel da mulher na Igreja e no Mundo. O problema é que determinados setores da Igreja se esquecem, vezes de mais, de a pôr em prática.

PADRE

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