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Cada Papa tem os seus santos

Cada Papa tem os seus santos

Há santos que estão em perfeita sintonia com a orientação que o Papa que os canonizou quer transmitir à Igreja. Um Papa que escolheu para seu nome o do "poverello" de Assis, e que faz dos pobres a sua preocupação primordial, não podia encontrar melhor personalidade para traduzir essa atenção do que a Madre Teresa de Calcutá. O Papa Francisco declarou-a santa no dia 4 de setembro de 2016.

Agora, no dia 6 de março, o Papa aprovou os milagres que abrem caminho à canonização do arcebispo mártir de El Salvador, Óscar Romero, e do Papa Paulo VI. São dois santos com quem o Papa se identifica e manifesta algumas semelhanças.

Óscar Romero é latino-americano como Bergoglio. Tal como este nos inícios do seu ministério sacerdotal, assumiu uma orientação que pode ser caracterizada como conservadora. Contudo, não foi imune ao clamor dos mais pobres e começou a defendê-los na sua ação pastoral, o que lhe valeu a classificação de "bispo vermelho". Tornou-se defensor da Teologia da Libertação, embora sempre tenha criticado a sua matriz marxista. Um dia terá dito a um jornalista que concordava, genericamente, com essa corrente da teologia, mas advertiu: "Há duas teologias da libertação. Uma vê a libertação como libertação material. A outra é de Paulo VI. Eu estou com Paulo VI". Poderá ainda ficar mais unido a Paulo VI se Francisco com os cardeais decidirem canonizá-lo no mesmo dia.

Paulo VI foi o Papa que deu continuidade ao Concílio Vaticano II e introduziu na Igreja muitas das reformas por ele preconizadas. Destaca-se a preocupação com a colegialidade e a criação do Sínodo dos Bispos. Desde então os papas publicam uma Exortação Apostólica, como resultado das reflexões sinodais. Uma das mais relevantes de Paulo VI foi a sua última, a "Evangelii Nuntiandi", sobre a evangelização no Mundo contemporâneo. A primeira exortação apostólica do Papa Francisco está em sintonia com a de Paulo VI. Logo no título se verifica essa relação: "Evangelii Gaudium" (A alegria do Evangelho).

A preocupação com os mais pobres foi também uma das marcas do papado de Paulo VI. Um dos textos fundamentais da Doutrina Social da Igreja é a "Populorum Progressio", publicada a 26 de março 1967. Aí Paulo VI exprime a sua inquietação com os problemas que afetam os países subdesenvolvidos do dito Terceiro Mundo e propõe uma das frases mais emblemáticas do seu Pontificado: "O desenvolvimento é o novo nome da paz". Paulo VI participou na segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano em Medellín, na Colômbia, no dia 24 de agosto de 1968. Nesse encontro foi proposta à Igreja a "opção preferencial pelos mais pobres". Uma orientação que o Papa Francisco procura que seja vivida e testemunhada, 50 anos depois da sua formulação.

A característica comum dos três santos elevados aos altares pelo Papa Francisco - a Madre Teresa, D. Óscar Romero e Paulo VI - é a predileção por aqueles que a sociedade e a Igreja tantas vezes esquecem. Sejam eles os que são lançados e abandonados nas valetas das ruas de Calcutá; os que são explorados e escravizados na América Latina; ou os pobres dos países subdesenvolvidos.

Todos esses e tantos outros pobres sobem aos altares com estes novos santos.

* PADRE

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