Opinião

Não há partidos cristãos

Não há partidos cristãos

Os partidos políticos defendem uma determinada conceção da pessoa humana e da sociedade. A partir dela propõem um programa que procuram levar à prática, com os mandatos que conseguem conquistar nas eleições.

Apesar de no passado, e ainda hoje, alguns dos partidos se classificarem como de inspiração cristã, não é fácil encontrar um que respeite todos os princípios da Doutrina Social da Igreja - ou os ensinamentos do Papa.

Ainda que todos os partidos defendam e incluam nos seus programas o respeito pela dignidade da pessoa, o bem comum, a solidariedade, e a subsidiariedade - princípios que os bispos propõem na Carta Pastoral, recentemente publicada, a propósito das eleições que se aproximam - têm um entendimento diferente da sua concretização. Uns coincidem com os bispos na defesa da vida desde a conceção até à morte natural. Mas afastam-se deles na condenação da "economia que mata", na "autonomia dos mercados" ou no acolhimento devido aos refugiados. Outros são mais sensíveis ao apelo do Papa (assumido pelos bispos portugueses) para "cuidar da casa comum", mas defendem o aborto ou a eutanásia, que aqueles condenam.

Por isso, não é possível encontrar um partido em que todos os cristãos se revejam. Até porque, como qualquer cidadão, uns são mais sensíveis a determinadas causas e não valorizam tanto outras. Isto permite que, mesmo defendendo os mesmos princípios, os cristãos possam optar por votar em partidos diferentes. Escolhem aquele que acham que os pode representar, ou governar, melhor.

Assim sendo, não é correto que aqueles que estão investidos de autoridade na Igreja deem uma indicação aos fiéis daquele que deve ser o seu voto, como não o fazem os bispos portugueses na referida Carta Pastoral. Compete-lhes, apenas, propor princípios, de acordo com os quais cada um possa tomar a decisão do partido em que votar. Não se devem imiscuir no jogo político-partidário, mas não podem abdicar de denunciar as situações em que os valores e os princípios que defendem não são respeitados.

Aos clérigos está mesmo vedada uma participação ativa nos partidos políticos e na atividade sindical, a não ser que suspendam o exercício do ministério, mas devem estimular os fiéis leigos a desempenhar essa missão. "Os que são ou podem tornar-se aptos para exercer a difícil e muito nobre arte da política, preparem-se para ela; e procurem exercê-la sem pensar no interesse próprio ou em vantagens materiais. Procedam com inteireza e prudência contra a injustiça e a opressão, contra o arbitrário domínio de uma pessoa ou de um partido, e contra a intolerância. E dediquem-se com sinceridade e equidade, mais ainda, com caridade e fortaleza política, ao bem de todos", como se lê na "Gaudium et Spes", do Concílio Vaticano II.

Não é fácil para os cristãos militar num partido político. Serão necessariamente confrontados com opções concretas que porão em causa as suas convicções. Mas essa é uma oportunidade única para exercer o seu compromisso com a transformação da sociedade e do Mundo.

Padre