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Nomadélfia: onde a fraternidade é lei

Nomadélfia: onde a fraternidade é lei

Os primeiros cristãos, de acordo com os Atos dos Apóstolos, possuíam tudo em comum e não havia entre eles necessitados. Considera-se hoje que uma sociedade sem propriedade privada é utópica e irrealizável. Por vezes argumenta-se que nem mesmo nos inícios do cristianismo tal se tenha verificado. Hoje, com o falhanço do projeto comunista da sociedade, é ainda mais difícil de acreditar que se possa organizar uma sociedade sem o respeito pelos bens de cada um.

Contudo, no interior da Igreja, há inúmeras organizações em que os seus membros abdicam desse direito a possuir, caso das congregações e das ordens religiosas. E há também quem desafie o que é comumente aceite e se atreva a viver de acordo com o que está escrito nos Atos dos Apóstolos, mesmo sem ser padre ou religioso, mesmo casando e tendo filhos. É o caso de Nomadélfia, uma comunidade que o Papa visitou na passada quinta-feira.

O padre Zeno Saltini (1900-1981) deixou-se tocar pelo problema das crianças sem pais e dos jovens que a sociedade descartava e marginalizava. Abandonou a carreira de advogado e entrou para o seminário, ordenando-se aos 31 anos. No dia da sua primeira missa acolheu e assumiu como filho um delinquente de 17 anos. Começou a acolher na sua paróquia as crianças que perderam os pais na Segunda Guerra Mundial. A ele juntaram-se algumas jovens que decidiram ser "mães de vocação". Vieram também alguns casais, que, para além dos próprios filhos, assumiam outros como seus.

Estabeleceram-se nos terrenos que uma condessa italiana, Giovanna Albertoni Pirelli, disponibilizou junto a Grosseto, a norte de Roma. Assim nasceu Nomadélfia, em 1948, um neologismo que resulta da junção das palavras gregas nomós (Lei) e adelphía (Fraternidade). Hoje tem 300 habitantes, organizados em grupos de três a quatro famílias, que partilham a mesma mesa e se encarregam da educação das crianças, da assistência aos doentes e idosos.

Em Nomadélfia vive-se um estilo de vida inspirado nos Atos dos Apóstolos (2, 42-47). Não há propriedade privada. As famílias estão disponíveis para acolher crianças. Não há retribuição pelo trabalho e todas as famílias recebem os bens que necessitam. A responsabilidade educativa é assumida por todos os adultos, as crianças não têm notas e submetem-se a exames nas escolas públicas para ver reconhecido o seu grau de ensino. Só podem ser membros plenos da comunidade depois dos 21 anos e após um discernimento de pelo menos três anos. Pode-se abandonar quando se quiser Nomadélfia.

Para além dos trabalhos agrícolas a que se dedicam os habitantes desta comunidade, preparam espetáculos que realizam, gratuitamente, em toda a Itália e também no estrangeiro, a divulgar e propor este estilo de vida fraterno. Apesar disso, é uma experiência pouco conhecida. Talvez por pôr em causa a organização capitalista das nossas sociedades, comumente aceite por quase todos. Ou com medo da proximidade com ideologias que, entretanto, entraram em descrédito.

Na verdade, Nomadélfia e o cristianismo propõem uma fraternidade sem matar o "Pai", ou seja Deus. Nisso se distinguem de experiências que falharam porque (entre outras razões, que não vêm ao caso) pretendiam criar uma fraternidade, mas de "órfãos".

PADRE

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