Opinião

O acordo do Papa Francisco com a China

O acordo do Papa Francisco com a China

A Santa Sé e a República Popular da China assinaram um "acordo provisório" para a nomeação conjunta dos bispos católicos. D. Antoine Camilleri, subsecretário das Relações da Santa Sé com os Estados, e o sr. Wang Chao, vice-ministro das Relações Exteriores da República Popular da China, firmaram o acordo este sábado, num encontro em Pequim. É o primeiro passo para pôr fim a um diferendo que surgiu há mais de sessenta anos.

Com a promulgação da República Popular da China por Mao Tsé-Tung, a 1 de outubro de 1949, deixou de ser permitida a liberdade religiosa naquele país. Em 1957, foi fundada a Associação Patriótica Católica Chinesa, com o objetivo de controlar a atividade dos católicos no território. A autoridade do Papa para nomear bispos deixou de ser reconhecida, passando estes a ser escolhidos pelo Governo. E os católicos que se mantiveram fiéis a bispos nomeados pelo Papa passaram a viver na clandestinidade.

Depois de décadas de negociações entre a Santa Sé e o Governo chinês, chegou-se finalmente a este "acordo provisório", cujo texto não foi revelado, uma vez que vai ser afinado nos próximos anos. Ficou a saber-se, porém, que a partir de agora, para a nomeação de um novo bispo, terá de haver uma concordância entre o Governo da China e a Santa Sé. Ao Papa fica reservado o direito de vetar bispos propostos pelas autoridades chinesas.

Trata-se de um acordo histórico, mas controverso. Para os católicos que nunca aceitaram a ingerência do Estado na sua fé, mesmo correndo o risco de serem perseguidos, este acordo significa um menosprezo pela sua fidelidade a Roma. E não veem com bons olhos a intromissão do regime comunista nas escolhas do Papa. Já na ótica da diplomacia vaticana, é preferível ter essa condescendência para com as autoridades chinesas do que ter bispos e comunidades católicas que não estão em plena comunhão com o Papa.

Desde João XXIII que a Igreja Católica se foi habituando a dialogar com os regimes comunistas. Sem deixar de condenar o comunismo, procurou garantir para os católicos nesses contextos uma maior liberdade para viver e celebrar a sua fé. É a denominada a Ostpolitik da diplomacia vaticana. Este termo vem do alemão e significa "a política do Leste". Foi utilizado para classificar os esforços do chanceler da então República Federal da Alemanha, Willy Brandt, para, nos anos 60/70, conseguir um melhor relacionamento com uma Europa do Leste dominada pelo comunismo.

A Santa Sé, após anunciar a assinatura do acordo, revelou que o Papa Francisco decidiu legitimar os oito bispos que foram ordenados nos últimos anos sem a sua aprovação. Assim, "pela primeira vez depois de tantas décadas, hoje todos os bispos na China estão em comunhão com o Bispo de Roma", sublinhou o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado da Santa Sé, nas primeiras reações ao acordo.

Aguarda-se agora que o Governo chinês reconheça também os cerca de vinte bispos na clandestinidade nomeados pelo Papa. Dar-se-á então início a uma nova etapa do catolicismo na China.

*PADRE