Opinião

O sexo dos padres

O sexo dos padres

Nada do que se diga ou escreva em defesa da Igreja pode servir para desvalorizar os abusos sexuais de crianças no seu interior. Nem que seja apenas um, em todo o Mundo, será sempre um crime hediondo e um pecado gravíssimo, que deve mobilizar todos os católicos na luta pela sua erradicação. Qualquer tentativa de encobrimento desse tipo de comportamento - ou negligência na sua prevenção, denúncia e punição - configura uma nova violência contra quem já sofreu o abuso.

Por isso, todas as denúncias, relatórios e notícias dos jornais que revelem estes comportamentos repugnantes dentro da Igreja, ainda que a façam sofrer e envergonhem, devem ser acolhidos com humildade - e até com gratidão, pois possibilitam que "a chaga seja curada". Foi isto que disse há dias o P. Hans Zollner, da Comissão Vaticana contra a pedofilia e presidente do Centro de Proteção de Menores, criado em 2012 na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, na sequência da luta contra a pedofilia na Igreja que Bento XVI promoveu com total determinação.

São também valiosos contributos como os de António Marujo ou de João Miguel Tavares, no "Público", que apontam para uma investigação independente dos abusos em todo o Mundo. Também neste jornal, Inês Cardoso defendeu uma "revolução" que leve todos os batizados a empenharem-se em "acabar com a pedofilia, com a ostentação, com os abusos do poder" na Igreja.

Isto dito para que não haja equívocos, é minha obrigação sustentar - em nome da verdade - que não se pode passar a ideia que é uma prática generalizada na Igreja o abuso de menores e que nada tem sido feito para o evitar. Não se pode tomar a parte pelo todo. Não é pelo facto de um político ser corrupto que todo o seu partido é corrupto, ou que todos os políticos o são. Desde 2012, foram introduzidos procedimentos que - como demonstra o relatório de Pensilvânia - têm levado à diminuição drástica dos casos identificados. Já disse que é preciso fazer mais (como é óbvio), mas não se pode dizer que nada está a ser feito!

Também vale a pena falar de correlações como a que faz João Miguel Tavares ao defender que a Igreja avalie o impacto do celibato nos padres abusadores. Ora, a Pontifícia Universidade Gregoriana (onde estudei) vai ministrar um Master em Proteção de Menores. Será "um programa de alto nível para uma formação académica e transformadora".

Também Juan María Uriarte, no livro "El celibato", apresenta estudos que atestam que "a tendência para a pedofilia tem como origem um grande défice no desenvolvimento sexual e afetivo do sujeito. Tal défice regista-se em alguns clérigos e em muitos outros seres humanos. Infelizmente, a frequência desta prática, patológica e destruidora, no âmbito familiar, profissional, educativo e lúdico não é quantitativamente menor que no âmbito celibatário".

Juan María Uriarte, para além de doutor em psicologia, foi bispo de Zamora e San Sebastian. Vai estar em Fátima na próxima semana no Simpósio do Clero, certamente disponível para falar da sexualidade sacerdotal.

* PADRE

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