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Os abusos sexuais abalam a Igreja

Os abusos sexuais abalam a Igreja

Um novo terramoto abanou a Igreja Católica, com epicentro no estado norte-americano da Pensilvânia. A revelação do relatório do Supremo Tribunal de Justiça deste estado veio tornar públicos milhares de abusos sexuais cometidos, ao longo de décadas, por cerca de 300 sacerdotes.

São gravíssimos os casos revelados. Mas, mais grave ainda é verificar-se que houve negligência e tentativas de abafar esses casos por parte da hierarquia da Igreja Católica, envolvendo o próprio Vaticano.

Esta é, portanto, para todos os católicos uma hora de "vergonha e de dor", como reconheceu o porta-voz da Santa Sé. Mas é, também, ocasião para sublinhar o quanto a atitude da Igreja mudou em relação à pedofilia e aos abusos sexuais no seu interior. Antes procurava abafar-se o que se passava e pressionavam-se as vítimas para não avançarem com as suas denúncias para a via judicial, em nome do falso pressuposto do "bem da Igreja". Depois as coisas foram mudando.

João Paulo II mostrou querer pôr fim a esses procedimentos, mas, manietado por certos setores, nomeadamente da Cúria Romana, não conseguiu avançar muito. Logrou, ainda assim, em 2001, que o abuso sexual de um menor perpetrado por um clérigo passasse a fazer parte da lista dos delitos graves reservado à Congregação para a Doutrina da Fé. Desde então, os bispos passaram a ser obrigados a comunicar os casos detetados nas suas dioceses, desde que existissem provas claras dos abusos.

Bento XVI deu continuidade aos esforços do seu antecessor e, na sequência do escândalo na Irlanda, impôs aos bispos que determinassem procedimentos claros e contundentes nestas matérias. Foi o primeiro Papa a enfrentar o problema sem rodeios e com total firmeza - a Igreja deve-lhe isso!

Na sequência das exigências de Bento XVI, a Conferência Episcopal Portuguesa aprovou, em 2012, as diretrizes a adotar nestes casos: "No caso de confirmação dos indícios, ou da credibilidade das evidências da prática do delito, deverá proceder-se da seguinte forma: instauração imediata do procedimento canónico; aconselhamento da vítima ou denunciantes a promover a participação imediata dos factos às autoridades civis competentes; avaliação das medidas cautelares a adotar, de modo a reparar o dano e a impedir a verificação de novos casos".

O Papa Francisco assumiu o trabalho dos seus antecessores e, ainda recentemente, no caso do Chile, demonstrou que deixou de haver qualquer condescendência para com bispos que sejam negligentes com denúncias ou que as procurem encobrir. É hoje muito difícil que se repitam atitudes de negligência ou tentativas de pressão sobre as vítimas para encobrimento dos predadores sexuais. Por isso, e apesar de tudo, têm vindo a diminuir acentuadamente o número de casos de abusos de crianças e adolescente no seio da Igreja.

O relatório da Pensilvânia demonstra isso mesmo: desde 2002, os abusos diminuíram. Não chega, porém - é preciso acabar com eles! Um só caso que aconteça, em qualquer lugar, será sempre motivo de "vergonha" e de "dor" para a Igreja.

*PADRE

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