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Francisco Seixas da Costa

O que quer Marcelo? (1)

Todos temos a clara consciência de que hoje se vive um momento singular no tocante à relação do presidente da República com o país. Se a personalidade de Marcelo Rebelo de Sousa já prenunciava que ele poderia vir a ser um presidente atípico, com fatores específicos de natureza conjuntural e o contraste com o seu antecessor a contribuírem para tal, julgo que ninguém previu o cenário que aí está: uma esmagadora maioria de portugueses, num juízo indiscutível de sociologia empírica, vive hoje satisfeita, em maior ou menor grau, com o chefe de Estado que as eleições determinaram. Sendo que essa maioria, visivelmente, é bem superior aos votos que o elegeram, só podemos tirar uma conclusão óbvia: a ação do presidente conquistou muitos daqueles que nele não haviam votado.

Francisco Seixas da Costa

O almoço das quintas

"Não queres responder àquele cronista que há dias te criticou num jornal?", perguntava-me um amigo, no almoço das quintas, quando eu confessava hesitar quanto ao assunto a abordar nesta crónica. Respondi que não: quem escolhe os meus interlocutores sou eu, não o contrário. Em especial, quando as pessoas estão de evidente má-fé, treslendo o que escrevi, como foi o caso. "Talvez valha então a pena falares das trapalhadas do Benfica!", alvitrou outro. A ideia nem era má, mas o que é que alguém pode dizer sobre o assunto, sem se pensar logo que a opinião está manchada por clubite? A única coisa que sei, de ciência certa, é que vamos ter uma novela para vários anos, com recursos e contradições judiciais. No final, até aposto!, a montanha vai parir um rato ou um bode expiatório. Não, não vou falar de futebóis, muito menos das eleições de amanhã, no meu Sporting. Outro conviva deu então uma nova dica: "E se comentasses as sondagens que saíram?". Escrever sobre o tombo do Bloco, pelo efeito Robles, ou de como o PS ainda fica longe da maioria absoluta? "E, de caminho, anotavas que agora já não é a água que vai pelo rio abaixo, mas que é o Rio que vai por água abaixo...", sorriu o meu parceiro do lado, gozando a "trouvaille". Não, com as eleições ainda longe, deixo isso para os exegetas televisivos.

Francisco Seixas da Costa

Loureiro dos Santos

Um dia, nos tempos em que coincidimos numa aventura de aconselhamento universitário, em conversa com o meu saudoso chefe da "tropa", o general Gabriel do Espírito Santo, vieram à baila nomes dos tempos do "verão quente" de 1975. Embora tivessem decorrido algumas décadas, o impacto desses dias comuns mantinha em nós fortes impressões sobre algumas figuras, embora nem sempre coincidentes. Ele conhecia-as mais de perto, eu tinha criado uma visão mais ligeira, feita nos corredores e nos episódios vividos no seio do MFA, por onde tinha "passarinhado" como civil fardado.

Francisco Seixas da Costa

Vamos a contas

Este não foi um ano fácil para o governo, em especial para António Costa, sendo que o primeiro mostra, a cada dia, ser um quase heterónimo do segundo. A tragédia dos incêndios, e bastante menos a comédia de Tancos, acabou com o estado de graça mas ficou longe de desgraçar o executivo. O otimismo abrandou, mas não afetou a economia, soprada pelas exportações, pelo turismo nas ruas, com ambiente externo e BCE a ajudarem, pelo menos até ver. Centeno, com visível gosto, atou as mãos a si mesmo no Eurogrupo em matéria de défice, embora isso não deixasse de ter consequências nervosas no equilíbrio interno da geringonça. Empochadas as recuperações salariais, PCP e Bloco, percebendo que algumas margens orçamentais afinal existem e só não são usadas porque é preciso edulcorar a imagem do novo bom aluno europeu (que agora até já tem um sorridente retrato), fazem a coreografia vocal da pré-rotura, mas não passam a soleira de uma crise, cujo efeito de "boomerang" temem. O Bloco é entretido com notas emblemáticas e alguns fogachos legislativos fraturantes, que, aliás, ajudam o PS a sustentar ideologicamente a sua própria ala que dele está mais próxima. No seio dos comunistas, António Costa bem pode acender uma vela a S. Jerónimo, porque o que depois dele virá saudoso aliado dele fará. No meio, o presidente preside, numa filosofia de ação que fica cada dia mais clara e que, no essencial, se pode resumir assim: estar ao lado do que estiver a correr bem, nada fazendo para que algo corra mal e depois logo se verá. E não é que me ia esquecendo da oposição? No CDS, a novidade passou, o discurso é errático, umas vezes mais liberal, outras ultramontano, já a roçar terrenos estranhos. No PSD vive-se um ambiente shakespeareano revisitado por Gervásio Lobato, com boa vontade, por Feydeau. Há por ali dois partidos. A abada eleitoral autárquica afastou Passos Coelho, a província ajudou a eleger Rio mas este não pacificou as hostes, onde a aldeia de Astérix (que tem um incendiário Obélix e tudo!) acantonada no grupo parlamentar vive num sebastianismo que, cada vez mais me convenço, acabará por fazer voltar o governante preferido da troika. Vão tentar apear Rio até ao final do ano, temendo a "limpeza de balneário" que este fará em S. Bento. Não sei o que o PS deva temer mais: Rio pode não ter muito jeito, mas exala genuinidade e sentido de Estado, enquanto Passos é um agregador automático da geringonça. Por mim, não tenho dúvidas: António Costa é um excelente primeiro-ministro. Ponto.