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Francisco Seixas da Costa

Ai Brasil!

Há dias, em escassas horas, o Brasil assistiu - e eu, que estava por lá, também - a um debate extremado de natureza político-jurídica, envolvendo, uma vez mais, Lula da Silva. Um juiz de turno, numa instância que, horas depois, viria a ser declarada incompetente para tal, tomou a polémica decisão de mandar soltar o antigo presidente. No emaranhado quase incompreensível que hoje constitui o processo judicial brasileiro, sucederam-se ordens e contraordens. As televisões encheram-se de especialistas (como por cá também houve, ao que me disseram, sobre caves tailandesas). Os atores políticos, chamados a pronunciar-se, reagiram da forma expectável, algumas vezes com a ambiguidade de um discurso tático, atentas as eleições que se aproximam. E, sem surpresa, Lula continuou na prisão, onde, aliás, rapidamente teria regressado se acaso tivesse sido solto.

Francisco Seixas da Costa

Pobre Humberto Delgado!

Terça-feira passada. Atraso no voo TAP para Madrid: cinco minutos! Quase a perfeição! No aeroporto, percebi que as coisas não iam ser bem assim. A porta foi anunciada e já havia mais 25 minutos. Era a porta 16. Tomei assento por lá. Minutos depois, vi no quadro: o embarque tinha passado para a porta 26, bastante mais longe. E lá fui eu. Encontrei um amigo de jornada e começámos a conversar. A certa altura, um de nós olhou o quadro e reparou: o embarque tinha mudado para a porta 13. Precisamente no outro extremo do aeroporto. Lá teria que ser! E fomos. Chegados, sentámo-nos. Anunciado entretanto um novo atraso. Afinal, já ia numa hora e dez. Retomada a conversa. Aviso: o embarque voltava, de novo, para a porta 26, repito, no outro extremo do longo corredor. Bem mandados, lá fomos. Embarcámos. Tinha saído de casa às 11.30, chegado ao aeroporto às 12, partido às 15. Cheguei ao hotel em Madrid às 18.30 locais. De porta a porta, seis horas, contando com a diferença horária! O voo Lisboa-Madrid demora 50 minutos! (No regresso, no dia seguinte, tudo "melhorou": mais de duas horas de atraso!)

Francisco Seixas da Costa

Sorrisos a mais

No início de 2000, o líder conservador austríaco, vencedor das eleições no seu país, decidiu fazer uma coligação com um partido de extrema-direita, cujos responsáveis haviam dado mostra pública de simpatias pelo nazismo. A Europa comunitária reagiu, em polvorosa, e Portugal, enquanto presidência da União Europeia, teve de gerir aquele que foi um período muito delicado da vida europeia. A Áustria foi alvo de "sanções" e o assunto acabou por vir a originar a inserção de disposições no novo tratado europeu então em curso de negociação, contemplando a possibilidade de um Estado poder vir a ser suspenso de membro, em determinadas condições. Noto, para se perceber o que mais adiante refiro, que aí se fala de "um" Estado, pressupondo-se que os restantes se mantêm no completo respeito pelo acervo legislativo relevante.

Francisco Seixas da Costa

2500

O editor de Opinião deste jornal informou-me, na manhã de ontem, que a nova estrutura gráfica obrigava a que estas crónicas, imperativamente, não ultrapassassem os 2500 carateres (com espaços, como se diz na linguagem dos textos). Ele sabia bem por que me avisava: é que este escriba excedia regularmente esse limite teórico e avançava, à desfilada, por um número de consoantes e vogais que levavam a Gonçalo Cristóvão, ao final da tarde das quintas-feiras, a ter de lutar contra a lei física da impenetrabilidade.

Francisco Seixas da Costa

A Europa de Bruxelas

Há a Europa e há a Europa de Bruxelas. Esta última é um corpo mais ou menos organizado que tem como cultura comum uma certa ideia evolutiva do projeto europeu. Essa cultura, decantada ao longo décadas, atravessa grande parte do funcionalismo da máquina europeia, a qual, sem o dizer, se considera ungida da missão de levar à prática uma espécie de desígnio "do bem", cuja finalidade não é explicitada e que só é debatida na metodologia. Aliás, as mais das vezes, o objetivo final não é sequer referido, para evitar espantar a caça. De certo modo, esse projeto europeu funciona na lógica do socialismo reformista de Bernstein: "o movimento é tudo, o fim é nada". Em português simplório é o "vamos andando e depois logo se vê".

Francisco Seixas da Costa

São todos iguais?

O tema da distância entre a "classe política" e os cidadãos é eterno e universal, mas o modo como tem vindo a evoluir na sociedade portuguesa contemporânea começa a não ser democraticamente saudável. Às vezes pergunto-me se os responsáveis eleitos, que hoje titulam cargos públicos, têm real consciência do risco que o alastrar deste sentimento faz correr às instituições, de como subliminarmente isso as deslegitima aos olhos do cidadão comum.