Opinião

A questão europeia

Estão à porta as eleições para o Parlamento Europeu. Entre os deputados a eleger pelos "27" (ou pelos "28", se o Brexit se atrasar) haverá, com toda a certeza, uma percentagem de eurocéticos, ou mesmo de antieuropeus, superior a qualquer anterior legislatura, o que tornará aquele areópago numa instância mais contrastante e polémica.

E isso não ocorrerá sem consequências negativas para a eficácia daquela instituição, cujos poderes, à luz dos tratados, têm vindo a crescer. Esse vai ser um problema europeu, para os próximos cinco anos.

Estranho, contudo, que ninguém fale de uma outra realidade, paralela a esta, a qual, a meu ver, pode ter efeitos bem mais graves no funcionamento da União: refiro-me à composição da nova Comissão Europeia, que estará em funções no final do corrente ano, depois de aprovada pelo novo parlamento.

A Comissão, que tem o exclusivo da iniciativa legislativa, é uma instituição composta por personalidades - uma por país - indicadas pelos Estados membros, designadas pelos respetivos governos, em diálogo com o futuro presidente. Em princípio, os comissários designados devem "esquecer" a sua nacionalidade, mas a realidade da vida aponta quase sempre noutro sentido, isto é, quase sempre carreiam para dentro do colégio as linhas políticas que marcam os governos que os escolheram.

Durante muitos anos, a Europa habituou-se a viver sob a égide de duas grandes famílias políticas - uma conservadora, outra social-democrata. Essas correntes foram hegemónicas ao longo de toda a história europeia, com expressão natural na composição das sucessivas Comissões. Mantinham algumas diferenças entre si, mas as suas parecenças foram sempre bem maiores do que as suas dissemelhanças, pela circunstância de olharem o desenvolvimento do projeto europeu sob um prisma basicamente comum. No trabalho coletivo dentro da Comissão, sob a coordenação de um presidente oriundo da família política dominante no conjunto dos governos nacionais, as suas eventuais diferenças geralmente esbatiam-se, sob esse "template" europeísta.

Tudo isso pode agora mudar. Há governos europeus, alguns que hoje são membros "rebeldes" das famílias políticas tradicionais, que não quererão perder o ensejo de enviar para o seio daquela instituição figuras que consigam defender a sua "diferença" e até, porque não?, a sua vontade de contestar o próprio projeto europeu. É a democracia que lhes confere esse direito. A menos que aconteça um "milagre", os anos que aí vêm serão muito difíceis para a Europa.

*Embaixador