O Jogo ao Vivo

Opinião

Tempos de dúvida

Portugal atravessa aquele que é, porventura, o momento mais delicado da gestão da pandemia. Não me refiro à questão médica e sanitária, assunto que deixo a quem dele sabe.

O ponto que aqui me importa é a dimensão cívica e política do tema. Como questão de cidadania, essa é uma questão sobre a qual é legítimo que todos tenhamos opinião.

Em março, o país tomou um susto e confinou-se. O Governo esteve bem no modo como atuou e as medidas impostas, com maiores ou menores reticências de alguns, foram genericamente bem aceites. A tragédia italiana, somada ao agravamento da situação em Espanha, criou o caldo de temor que permitiu que se tivesse ido mesmo bastante longe nas medidas coercivas.

António Costa mostrou então uma autoridade equilibrada e o país reconheceu o valor dessa liderança. No seu estilo, o presidente fez o que lhe competia, na solidariedade institucional que era indispensável. Rui Rio, acompanhado pelo país político responsável, mostrou-se à altura do momento. Os resultados eram animadores e isso ajudou, se não ao consenso, pelo menos a uma maioria de adesão.

Depois, vieram as "exceções", para todos os gostos - das datas institucionais às manifestações cívicas, por causas ou por causa de algum partido. E, claro, Fátima. Com o progressivo retorno a alguma normalidade, surgiu o natural agravamento dos números.

O discurso oficial, que, compreensivelmente, sempre navegou um pouco à vista, entre os exemplos alheios e os números pátrios, ressentiu-se, muitas vezes, em termos de coerência. Nunca se assumiram nem se confessaram os erros praticados, o que, de certo modo, debilitou a confiança nas caras que titulavam a orientação seguida. Foi injusto, mas foi assim. E a chicana política foi encontrando espaço para operar.

Do quase consenso, algum país descolou então da narrativa oficial, duvidando da proporcionalidade de algumas medidas, ironizando de outras. Com a segunda vaga, muitas pessoas sentem-se inquietas e duvidosas do saber de quem as deve orientar.

PUB

A minha preocupação, olhando os últimos números mas, principalmente, lendo as tendências em vários países europeus, é saber se, perante a constatação de que podem vir a ser necessárias novas e mais fortes medidas limitativas, existe ambiente público para conseguir impor esse novo pacote de restrições, em condições de garantir a sua obediência generalizada.

É que um eventual incumprimento dessas novas medidas emergiria como um fator de corrosão da autoridade do Estado. E esse seria um drama a somar à tragédia.

Embaixador

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG