Em Psicologia, há uma estratégia terapêutica eficaz para tratar diversas patologias, nomeadamente estados de ansiedade e fobias. Designa-se dessensibilização sistemática e consiste em expor a pessoa a doses controladas daquilo que lhe provoca dor ou aversão, ao mesmo tempo que se induz um estado de relaxamento. A ideia é conseguir acabar com o sofrimento associado a determinado estímulo. Imagine-se alguém com pavor a pombos: começa-se por mostrar imagens das aves e vai-se aumentando progressivamente a exposição, ao mesmo tempo que se aplicam técnicas para relaxar. Se tudo correr bem, a aversão vai enfraquecendo, a ansiedade diminuindo e o paciente deixará de ter a reação fóbica quando for confrontado com o que antes lhe causava pânico. Ou seja, fica dessensibilizado para o que o fazia sofrer. Deixa de sentir.
Numa altura em que o acesso à informação se faz crescentemente por via das redes sociais - em Portugal, são a principal fonte de notícias para os mais jovens, segundo recente relatório do Reuters Digital News -, as fronteiras entre o real e o virtual esbatem-se, escala a confusão entre o que é jornalismo e entretenimento, os dramas são consumidos como mais uma temporada de uma qualquer série em streaming.
Amanhã, faz seis meses de guerra e a Ucrânia comemora a sua independência sob ameaça de um massacre, mais um, e sem que haja sequer esperança de negociar a paz. Será o dia 182 de destruição de um país, da chacina de um povo - mas há muito que deixamos de contar. As imagens do conflito banalizaram-se, as histórias tornaram-se repetitivas na sua tragédia, os discursos diários de Zelensky deixaram de nos interpelar (a produção de Volodymyr e Olena para a capa da "Vogue" e o desfile de líderes mundiais nas cidades bombardeados contribuíram também para a perceção de assistirmos a um "filme") e, até, o facto de 972 crianças terem sido mortas ou feridas parece não causar já inquietação. As ondas de solidariedade deram lugar à preocupação mais egoica, ainda que justificada, com a escalada da inflação.
A guerra que horrorizava deixou de nos impressionar. Normalizamos o inaceitável. Estamos dessensibilizados.
*Editora executiva-adjunta

