Opinião

A política e as vacinas

A política e as vacinas

Já houve um momento em que a vacinação era urgente e inquestionável. Quando o processo arrancou, 16,6% das pessoas com mais de 80 anos que adoeciam acabavam por morrer. A partir de março, a taxa de letalidade diminuiu para 1,4%.

As evidências em relação à vacinação de adultos são tantas, que só mesmo negacionistas e adeptos da teoria da conspiração poderão recusá-las.

A situação é completamente diferente quanto à imunização de adolescentes entre os 12 e os 15 anos. Não é por acaso que os especialistas continuam divididos. E não se trata sequer de pôr em causa a segurança da vacina. Como sintetiza de forma exemplar o presidente do Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos, "não basta que a vacina não seja perigosa, é necessário também que seja útil".

É exatamente sobre essa utilidade que recaem dúvidas. Se já seria eticamente questionável vacinar crianças (apenas) para proteger os adultos, mais dúbio ainda é esse exercício ao considerarmos que a vacinação não impede a transmissão, e também por isso dificilmente se atingirá a imunidade de grupo por essa via. À medida que sobem de tom os alertas a duvidar da imunidade de grupo, até a gestão cautelosa de expectativas deve reorientar o discurso político e a obsessão por metas estatísticas.

Não é admissível termos dúvidas sobre os efeitos da pressão política na mudança de posição da DGS. Nem é lógico quererem convencer-nos de que o calendário escolar condiciona tudo e o ano letivo só começa em segurança se todos os alunos de 12 e mais anos estiverem vacinados. Contradições e pressões têm, pelo contrário, um efeito perverso: lançar dúvidas entre os pais e fazer diminuir a confiança na vacina.

A ciência tem um tempo próprio, que não é compatível com a nossa urgência em conter o vírus. E será a ciência, como sempre, a mostrar o caminho mais acertado, corrigindo e selecionando as melhores vacinas, intervalos e estratégias. É preciso dar-lhe tempo para fazer esse caminho, sem pressas nem intromissões políticas onde a política não pode estar.

*Diretora

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