Ao remexer nas memórias dos 231 bombeiros que nos últimos 40 anos morreram no nosso país, na reportagem hoje publicada na "Notícias Magazine", a jornalista Ana Tulha fala dos dias que nenhum pai - como nenhuma mãe, irmão ou mulher - pode aceitar. Os dias em que o fogo desfaz vidas, como ontem aconteceu à de Jorge Jardim, o piloto vítima de acidente com um avião que combatia as chamas no Parque da Peneda-Gerês.
Este ano, foram já cinco os bombeiros mortos em serviço. O mais novo, Diogo Dias, tinha apenas 21 anos. Generoso e comprometido com a comunidade em que estava inserido, deixa um vazio irreparável num território dito de baixa densidade, onde são cada vez menos os que fazem e mais os que, à distância, debitam comentários e prometem soluções.
Sempre que um incêndio destrói florestas, casas ou vidas, desfiamos análises e ouvimos promessas políticas sobre o que um dia (hoje não, um dia) vai ser feito. Em 2017, tivemos um sobressalto coletivo e acreditámos que seria incontornável mudar estratégias e intervir a sério num Interior deixado à sua sorte. Três anos depois, a população continua a sentir-se sozinha e sabe que qualquer mudança dependerá da sua capacidade de luta, não de uma solução milagrosa que possa chegar do Terreiro do Paço.
Em conferências e debates sobre a floresta, oiço especialistas defender que em causa está um problema de gestão de paisagem. É pena não ser ponto assente que os incêndios são um problema de gente, de povoamento e falta dele, de absoluto desequilíbrio de um país que é pequeno mas ainda assim profundamente desigual. E cada vez que há um acidente e a Comunicação Social se enche de imagens trágicas, comentários e comoção, não consigo deixar de sentir que a energia necessária está antes e para lá das chamas, e devia mobilizar-nos num esforço sem tréguas, como desígnio nacional para conseguir que metade do território não seja engolido pela solidão. Porque há coisas, não apenas dias, que nenhum de nós devia aceitar.
*Diretora-adjunta
