Opinião

Desconstruir padrões

O termo "jacindamania" não nasceu por acaso. A primeira-ministra neozelandesa tornou-se um ícone global ao ascender aos 37 anos à chefia de Governo, e manteve-se em alta fora de portas mesmo quando as sondagens internas a mostraram em queda ou quando medidas radicais como a proibição de venda de tabaco a todos os nascidos após 2009 causaram debate. O inesperado anúncio da sua renúncia não poderia deixar de ter cobertura em todo o Mundo.

Símbolo de progressismo e feminismo, Jacinda Ardern usou a empatia como arma política e esse é, a par da autenticidade, um dos traços mais evidenciados nos perfis que dela são feitos. Outro é o estilo raro de liderança, que rompeu com cânones tradicionais como a agressividade e a dominação. Traços que muitas mulheres se esforçaram por reproduzir no poder, de forma a serem reconhecidas. Tendo conseguido introduzir mudanças na narrativa clássica, Jacinda acaba por ser vítima desses mesmos padrões. A sua renúncia está a ser apontada como desistência ou prova da difícil conciliação entre trabalho e vida familiar, como se, uma vez atingido o poder ou o topo, fosse inevitável e obrigatório querer permanecer nele.

Nos cinco anos em que esteve no comando, a primeira-ministra enfrentou o pior atentado de sempre na Nova Zelândia, a pandemia, uma erupção vulcânica e uma crise económica, ao mesmo tempo que foi mãe e se afirmou ao gozar um direito tão básico como a licença de maternidade. Deixa em herança indicadores como o emprego em máximos históricos ou a licença de parentalidade paga a 26 semanas. Assumir o desgaste é não apenas natural como quase inevitável e só a nossa falta de figuras de referência na política explica o quanto consideraríamos mais cómodo que Jacinda fizesse o que dela era esperado.

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O gesto de Jacinda Ardern, incluindo quando se dirige diretamente à filha e ao companheiro, é profundamente político e sintetiza princípios democráticos essenciais. Desde logo, no desapego ao poder e na autoexigência com que avalia as características que uma chefia de Governo exige - mesmo se, longe dos debates pequeninos a que assistimos sobre as condições para um governante envolvido em polémicas processuais se manter do cargo, estiver em causa apenas energia e disponibilidade total. Depois, porque Jacinda assume aquela que deve ser a aspiração de qualquer ser humano: a liberdade (social, emocional, política e financeira) para escolher, em cada momento, exatamente onde se quer estar.

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