Opinião

Gostar de Conguitos

Levamos vários anos de experiência a lidar com as redes sociais, mas tardamos a interiorizar que escrever um desabafo numa delas é bem diferente de participar numa conversa de café.

Bernardo Silva cometeu esse erro na piada que fez com o colega de equipa Benjamin Mendy, pela qual corre o risco de ser castigado pela Federação inglesa.

É absurdo não ver na troca de comentários entre os dois, em reação à fotografia em que Bernardo Silva o compara ao Conguito, uma cumplicidade que permite e explica a brincadeira. Mas ao recorrer ao Twitter, a publicação do futebolista deixou de ser um momento entre amigos e passou a estar disponível para o Mundo inteiro. Perde-se o contexto e a intimidade em que o humor pisa as fronteiras do politicamente correto.

O episódio é mais um exemplo do ambiente de policiamento que se impõe de forma totalitária sobre qualquer manifestação no espaço público. Do humor aos comentários de figuras públicas, cada palavra ou vírgula tem de ser cuidadosamente medida. Porque uma vez dito, nada pode evitar a amplificação e análise detalhada de cada sentido possível e imaginário.

Quando Michel Foucault, em 1975, revolucionou o pensamento sobre política social no mundo ocidental na obra "Vigiar e Punir", apoiou-se em mecanismos físicos de vigilância, como o panótico. Hoje a torre de observação que a todo o momento vê o que se passa à sua volta é universal e omnipresente. Não é circular, mas microscópica e multidirecional, com os vigiados e vigilantes sucessivamente a passarem de um para o outro papel.

Perigosamente, cada desvio à normalidade pode originar não apenas censura, mas punição. Num tempo em que julgávamos que as novas tecnologias iriam (apenas) alargar possibilidades de conhecimento e liberdade de expressão, as reações impulsivas e excessivamente policiais a que assistimos não deixam de ser inquietantes.

Diretora-adjunta

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