Não é a primeira vez que aqui se escreve sobre os processos em que a deputada socialista Hortense Martins tem estado envolvida, mas à medida que vão surgindo novos dados, com total silêncio do partido sobre o caso, acentua-se a convicção de que este é o exemplo perfeito de como o PS convive bem com sentimentos de impunidade que deterioram a relação de confiança dos cidadãos nos seus eleitos.
Na sequência do processo que deu como provado que a deputada e o pai falsificaram uma declaração sobre a gerência de uma empresa da família, o registo comercial foi recentemente corrigido. A curiosidade está na expressão utilizada para justificar essa correção (que altera de 2011 para 2014 o ano em que Hortense Martins deixou a gerência): "imprecisões no registo comercial" levam a que seja necessário "torná-lo mais legível".
Na suspensão provisória do processo, o Ministério Público alegou que os arguidos (a deputada e o pai) tinham interiorizado a "censura da conduta". A verdade é que o posterior comportamento de Hortense Martins, que se mantém tranquilamente no Parlamento, revela que afinal normaliza as suas "imprecisões" - que têm um alcance impossível de descrever no espaço desta crónica, com ramificações noutro processo por uso abusivo de verbas europeias em espaços turísticos que explora.
Qual a importância deste caso, para além do seu alcance particular? Mostra como o partido do Governo é pouco exigente com a conduta dos titulares de cargos públicos. E esse facto está expresso na Estratégia Nacional de Combate à Corrupção, que deixa de fora o financiamento partidário e a corrupção na Administração Local e nas estruturas de topo dos órgãos do Estado. Como bem sublinha a Associação Sindical dos Juízes Portugueses, no parecer que entregou ao Ministério da Justiça, com todos estes esquecimentos a estratégia "não pode ser levada a sério".
Diretora-adjunta
