António Costa parece um daqueles miúdos que, apanhados com a bola junto a uma janela acabada de partir, apontam para o colega e dizem que ele é que estava a chutar. E ainda acrescentam que vão proibir os jogos de futebol no local, ignorando que a placa de proibição já existe e está na frente dos olhos deles. Na polémica instalada à volta do jantar realizado no Panteão Nacional, muito mais relevante do que o evento é analisar a reação do Governo e a preocupante falta de sentido de responsabilidade que denota.
Vamos pôr de lado o facto de ser difícil acreditar, dada a proximidade entre o poder político e a organização da Web Summit, que em momento nenhum o Executivo teve conhecimento da iniciativa. Vamos igualmente esquecer que Paddy Cosgrave foi filmado a dizer que falou com "o ministro", admitindo tratar-se de um lapso. Podemos até ignorar que o Panteão tem sido palco de idênticos eventos, inclusivamente organizados por empresas públicas, como a NAV, que a 16 de outubro ali realizou o jantar de homenagem a funcionários.
Limitemo-nos a factos. Em 2014 foi aprovado um despacho que abriu 23 monumentos, palácios e conventos a eventos sociais, definindo preços e regras de utilização. O PSD deveria estar em silêncio, porque não só abriu a caixa de Pandora como apontou uma lista detalhada dos imóveis que prevê jantares e cocktails em todos os espaços do Panteão, à exceção da Sala Sul.
Não quer dizer, contudo, que se deva apontar o dedo ao PSD como culpado do jantar que o primeiro-ministro considerou "indigno". Porque o mesmo despacho define duas coisas bastante simples. Uma, que cada utilização dos monumentos tem de ser autorizada pela Direção-Geral do Património Cultural. Outra, que serão "rejeitados os pedidos que colidam com a dignidade dos monumentos, museus e palácios".
Houve um serviço tutelado pelo Ministério da Cultura que autorizou o polémico jantar. Como fez em iniciativas anteriores. O Governo é politicamente responsável e tem plenos poderes para intervir. Nem sequer precisa de mudar a lei para isso. Neste aspeto também o presidente da República deveria ser mais comedido nos elogios a António Costa por prometer uma proibição que o quadro em vigor já prevê.
O fundador da Web Summit, que pediu desculpa e foi o único a comentar as divergências culturais subjacentes à escolha, não tem de justificar-se. O Governo é que tem de mostrar coerência e responsabilidade pelas decisões que os seus serviços tomam. Em vez de passar a vida a chutar para canto.
* SUBDIRETORA
