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As lágrimas de Patrício

As lágrimas de Patrício

A semana já tinha começado com lágrimas. Nas fotografias do ataque à Academia de Alcochete, não foram apenas os cortes na cabeça de Bas Dost a chamar a atenção. Os olhos fechados e molhados traduziam de forma dolorosamente impressiva um momento que nunca deveria ter acontecido. No final do jogo de ontem, Rui Patrício chorou convulsivamente e a imagem de Bruno Fernandes cabisbaixo e agarrado à camisola dizia sem necessidade de legenda o que os jogadores estariam a sentir. Lágrimas de uma derrota que foi mais do que costuma ser. Muito mais do que um jogo.

O Sporting já tinha perdido, fora de campo. E até o vencedor Desportivo das Aves merecia ter jogado com outra atenção, sem uma semana em que não se falou de equipas, nem de táticas, nem de futebol. O desporto já tinha perdido. Houve os habituais piqueniques no Jamor, houve cachecóis e gritos e os passes rápidos que deve haver no relvado. A festa, essa, estava manchada.

Já muito se escreveu sobre a violência no desporto. Sobre claques, promiscuidade entre dirigentes e grupos violentos, excessos de linguagem servidos em indigestos programas de comentário televisivo. Sobre e-mails e denúncias, corrupção e discussão de factos misturados com o que a paixão decide que vê. Porque o futebol quando se torna doença é isso mesmo, uma espécie de cegueira.

Já muito se escreveu sobre a crise no Sporting. Os capítulos seguem hoje, com previsíveis discussões legais em torno de rescisões. E com guerras para decidir o poder, num clube picado aos bocadinhos e de contas que podem vir a revelar-se difíceis, tendo em conta a época que se adivinha. Há quem continue convencido de que os últimos dias foram um pesadelo apenas para os sportinguistas, não conseguindo ver o caminho que permitiu que se chegasse aqui.

Não precisamos de mais leis, nem de mais organismos ministeriais para controlar a violência no desporto. Precisamos de fazer cumprir a legislação que existe. De ser implacáveis com tudo o que mina o futebol. Das contas sujas aos fenómenos de corrupção. Na Comunicação Social, podemos começar por não dar tempo de antena a comentadores que em direto oferecem porrada. Ou retirar-nos de salas de imprensa quando os Brunos de Carvalho desta vida ficam horas a falar sem espaço a perguntas. Se nem desta vez aprendermos alguma coisa, o futebol continuará a perder.

SUBDIRETORA