Percebe-se a necessidade de alguém que esteve tanto tempo na vida pública como Cavaco Silva de manter uma voz. De chefe de governo derrubado por um buzinão a primeiro-ministro absoluto, de candidato presidencial derrotado a duas vezes eleito, o seu percurso foi sempre feito na fronteira.
Entre a crítica feroz e a confiança dada nas urnas. Entre a narrativa falaciosa do não-político e a ironia de ter sido a pessoa que mais tempo esteve, desde o 25 de Abril, a governar o país.
O exercício de passar à escrita a sua perspetiva dos cargos que ocupou é uma forma de continuar a aparecer publicamente. Foi assim no tempo de intervalo entre São Bento e Belém. É assim, agora, com as memórias dos dois mandatos presidenciais. Uma "prestação de contas" que o faz voltar a ser ouvido.
Há, em tantas centenas de páginas e conversas descodificadas, naturais surpresas e pormenores até aqui desconhecidos. E essa revisitação poderia ser útil, até historicamente, se procurasse fazer uma leitura política dos tempos.
O que Cavaco faz, no entanto, é outra coisa. Opta pelas leituras de caráter. E ao entrar pelo caminho das virtudes e sobretudo dos defeitos, sobra pouco além de uma visão distorcida do que terão sido os factos. Claro que o cidadão Cavaco Silva tem direito a todas as leituras pessoais. O ex-chefe de Estado, que nessa qualidade manteve conversas e tomou decisões que pressupõem uma capacidade de olhar o país com sentido de Estado, deveria evitar estados de alma pequenos.
Na vida pessoal, o azedume envenena quem o sente. Na vida pública, reveste-se de outros perigos sociais e políticos. Num tempo em que a agressividade tem feito caminho político um pouco por todo o Mundo, vale a pena refletir nos riscos de pensar a coisa pública e os seus protagonistas tendo o azedume como conselheiro.
*DIRETORA-ADJUNTA
