Já tudo foi dito e repetido. Sobre as múltiplas falhas que originaram a tragédia de Pedrógão Grande. Sobre o colapso da Proteção Civil e a descoordenação do combate, num verão de estragos ainda por contabilizar. Sobre a decisão inexplicável de não manter todos os meios disponíveis num mês de outubro que se anunciava quente. Sobre o facto de não ter havido, até agora, responsabilidades assumidas por ninguém face às conclusões já conhecidas em sucessivos relatórios.
Só que as tragédias também se vão repetindo e, ao contrário das falhas e das críticas, não são sempre iguais. Cada vítima mortal tem um rosto e uma história. Cada casa ardida tinha as raízes e as memórias de uma família. Cada empresa, cada parque de campismo, cada terreno, cada árvore, são bens únicos. O cenário dantesco deste domingo não deveria ter sido possível.
Não adianta o discurso de que a culpa é dos incendiários. Claro que há em muitos destes fogos origem criminosa - e nisso a Justiça ainda tem de fazer um longo caminho, aplicando mais as penas severas previstas no Código Penal e menos penas suspensas. Mas também com essa mão criminosa o Governo sabe há muito que tem de contar. Sejam quais forem as causas, temos de poder confiar num sistema capaz de responder com prontidão. Quem se atreve a confiar?
Já demos ao Governo muito tempo. A muitas perguntas feitas pelos jornalistas, temos recebido invariáveis vezes a resposta de que este é ainda o tempo do combate. Nem sequer tem sido feito o balanço exaustivo dos estragos, mas é obrigação dos serviços públicos divulgá-los. Não é só de mortes ou de feridos que se trata, porque essa é a informação mínima a dar num Estado de direito. Exigimos saber quantas casas, viaturas, empresas, anexos agrícolas, exatamente tudo o que se perdeu neste verão.
Vamos continuar a repetir o que se escreve e analisa há anos. Que este modelo de socorro está esgotado e precisa de ser fortalecido. Que tem de haver dinheiro para salvar a floresta e o mundo rural antes de arderem, não depois. Repetiremos até que alguma coisa mude. Até que quem nos governa sinta, pelo menos, vergonha de que este ano tenha acontecido.
SUBDIRETORA
