Opinião

Os rostos da desigualdade

Os rostos da desigualdade

Cada número é uma pancada no estômago. Oito mil refeições servidas a crianças até dez anos só no centro social da igreja do Marquês, no Porto, em 2020.

Em Lisboa, a Câmara está a entregar 820 refeições diárias em jardins de infância e escolas. São uma parte apenas de um problema cheio de variáveis difíceis de destapar e conhecer. A pobreza é quase sempre escondida, silenciosa, uma bola de neve de fatores que se cruzam e influenciam mutuamente.

Segundo o Instituto Nacional de Estatística, 25,8% das crianças portuguesas com menos de 12 anos vivem em casas com humidade ou em que chove. Quase 13% não têm a habitação devidamente aquecida, 9,2% não têm luz suficiente, 6,5% vivem em zonas consideradas violentas. Condições de vulnerabilidade destacadas num estudo sobre as desigualdades causadas pelo ensino à distância conduzido por investigadores da Nova School of Business and Economics.

A questão das desigualdades sociais tem sido repetida à exaustão sempre que se referem os efeitos perversos do encerramento das escolas. Mas continuamos muitas vezes a discuti-la como se por trás das estatísticas não houvesse gente, ao mesmo tempo que deixamos que o debate sobre o ensino à distância seja dominado por temas como a falta de computadores ou de rede. Como se a principal questão fosse a tecnologia e não fragilidades de base, da habitação ao contexto familiar, que fazem com que a casa seja, para tantos alunos, um lugar onde é impossível aprender.

Na altura em que se inicia mais um ciclo penoso de aulas não presenciais, é bom que as questões sociais estejam sempre no centro do debate. Que não haja tentações de olhar para este tema com receio da opinião pública, com o olhar exclusivo das prioridades sanitárias, com a irracionalidade do medo a toldar argumentos factuais. Voltar à escola deve ser de facto a grande prioridade do país. Porque há uma geração cujo futuro está a ser sacrificado. E sobretudo porque esse sacrifício é tão profundamente desigual, que não é justo alhearmo-nos de rostos concretos de crianças e jovens cada vez que equacionamos números e lançamos argumentos para a praça pública.

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