Opinião

Quando é que vamos inquietar-nos?

Quando é que vamos inquietar-nos?

Nas suas linhas gerais, o retrato não apresenta novidades. A inquietação está no detalhe, na malha fina dos números do Censos 2021 que agora o INE trouxe a público. Estamos mais velhos, somos cada vez menos (e a quebra só não é maior graças ao contributo positivo dos imigrantes), a distribuição pelo território é mais desequilibrada do que nunca. Um quinto da população concentra-se em apenas sete municípios e só um, Braga, não está nas duas áreas metropolitanas. É preciso somar os 208 concelhos menos povoados para atingir o mesmo número de pessoas.

Seria de esperar, perante um cenário com tantos motivos de preocupação, que o país se sobressaltasse e mobilizasse na procura de respostas. Não que haja soluções mágicas, como alertam demógrafos, porque pelo menos no futuro imediato continuaremos a ser cada vez menos. Mas há necessariamente estratégias para encarar o envelhecimento e melhorar a qualidade de vida, ou para ajudar a mudar de residência aqueles que querem ir para territórios de baixa densidade.

Não é um problema do interior, porque os números mostram com toda a evidência que os desequilíbrios estão em cidades médias e em tantos municípios de faixa costeira. E não é uma questão meramente demográfica, já que esta tem interligações com uma miríade interminável de temas - da organização familiar às dinâmicas sociais, da mobilidade às políticas urbanas, do mercado laboral à saúde.

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É todo o nosso futuro como país que está em causa, porque a população afeta tudo, do desenvolvimento económico à cultura. E parecemos estar adormecidos, alheados, como se o que vemos nesta fotografia pudesse deixar-nos descansados. Por vezes alimentando até antagonismos estéreis, como se o despovoamento fosse um problema de uma metade do país, a insegurança ou o trânsito caótico o preço a pagar pelo crescimento de outra metade. Como se não fôssemos um país só, ainda por cima pequeno, em que todos devemos ser parte da solução.

Os alertas repetem-se, cada vez mais sombrios, evidenciados pelos números. Os media titularam desequilíbrios, mas não se ouviram políticos preocupados, ou reações acaloradas, nem o tema mereceu entrar nas redes a ponto de se tornar "trending topic". Quando é que vamos inquietar-nos coletivamente?

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