Com o surgimento de novos movimentos políticos, menos vinculados a linhas ideológicas do que os partidos tradicionais, fomos assistindo à diluição entre Esquerda e Direita.
Claro que há posicionamentos e diferenças teóricas, mas hoje é mais difícil separarmos bandeiras como a justiça social e a economia de mercado como se fossem exclusivas de um lado ou de outro.
A grande diferença, hoje, faz-se pelos fundamentalismos. Os políticos e militantes distinguem-se entre radicais e moderados. E o radicalismo sente-se em extremos opostos do espectro político. Um moderado convive bem com a diferença de opiniões. A um radical parecerá incompreensível que os seus próprios princípios e visões do Mundo não sejam uma evidência para os outros. Pegando em temas que facilmente incendeiam o debate público, os radicais transpõem para o Parlamento a lógica de confronto das redes sociais.
Numa sociedade que não estivesse ainda carregada de feridas abertas pela descolonização, a proposta de Joacine de devolver bens culturais às ex-colónias mereceria ser discutida em serenidade, à semelhança do que tem acontecido com coleções de museus como o Louvre. A reação racista de André Ventura, acompanhada de intensas afirmações nas redes de pessoas a lembrar os bens deixados por retornados, mostram a total ausência de condições sociais e cívicas para se produzir este debate - com a moderação e bom senso que ele exige.
Qual o problema desta dicotomia entre radicais e moderados? É que os radicais são mais mobilizados, tanto os atores políticos como os seus apoiantes. E se há quem considere que não passam de representações restritas, com excesso de palco mediático - como António Costa defende em entrevista a ler na íntegra na revista deste domingo do JN -, não deixa de ser um risco minimizar o poder de atração dos extremos. É provável que continuem a crescer nas próximas eleições. Cabe aos moderados mobilizarem-se.
*Diretora-adjunta
