Opinião

Um país esvaziado

Agosto é por norma sinónimo de pausa na atualidade política e agenda mediática, regra que este ano se confirmou, ressalvadas as exceções da catástrofe política e humanitária no Afeganistão e da evolução da vacinação. A aproximação do congresso do PS resumiu-se à polémica sobre a sucessão do líder e o tabu que deixará de o ser em 2023, não havendo propriamente temas inovadores a saltar à vista nas três dezenas de moções sectoriais.

Depois do retrato desolador de um país desequilibrado e esvaziado traçado pelos censos 2021, poderia esperar-se um discussão sobre a visão que o partido no poder tem para revitalizar o país, mas o tema resume-se ao eterno apelo à regionalização (em que ninguém acredita seriamente) e a um clássico discorrer sobre as oportunidades para o interior do país.

Mais do que um problema do interior, a demografia é já uma questão central para o futuro do país. E deveria suscitar um sobressalto cívico, ser assumida como uma causa que interessa a todos, onde quer que vivam. Como pode ter futuro um território que desliza sempre para duas ou três cidades, sem polos intermédios de atração, sem sinais de inverter tendências sustentadas ao longo de décadas? Como se explica esta espécie de conformismo com os slogans de sempre, com as promessas de incentivos e de investimentos que, na hora da verdade, não mudam nada de estrutural?

As perguntas são inquietantes quando desfiadas em tempos de reflexão dos partidos que há muito vão ocupando o eixo de governação. E quando se aproximam as eleições autárquicas e muitos projetos se discutem entre eleitores cada vez mais envelhecidos e, sobretudo, cada vez mais descrentes. O maior drama é exatamente esse: a falta de horizontes de esperança e a sensação de que se atingiu um ponto de não retorno em muitos municípios. Os autarcas não podem ser bodes expiatórios das sucessivas perdas dos seus territórios. A escala local é demasiado pequena para, sozinha, promover políticas capazes de atrair e fixar pessoas. Sem ação política no Terreiro do Paço, nada será possível. Esse deve ser um desígnio nacional.

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