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Joana Marques

Pobre "Mary"

Trago boas notícias para o juiz Neto de Moura! Encontrei-lhe uma alma gémea do outro lado do Atlântico. E com a vantagem de não se tratar de uma mulher, esse ser repleto de pecado! O homólogo de Moura chama-se James Troiano e, ficámos esta semana a saber, absolveu um violador por ser de "boas famílias". Vamos por partes: o caso remonta a 2017, mas veio agora a público porque Troiano foi alvo de uma repreensão do tribunal de recurso. É o equivalente americano à advertência aplicada pelo Conselho de Magistratura a Neto de Moura. Repreensões, advertências, tudo castigos severos para juízes com decisões (e justificações) incompreensíveis. É mais ou menos como fazer uma entrada a pés juntos e não ver sequer o amarelo, levar só um raspanete do fiscal de linha. James Troiano julgou o caso que opunha Mary (nome falso; lá como cá, todas as vítimas são Maria) e a G.M.C (não é nome falso, são iniciais verdadeiras, que esta gente de boas famílias dá muita importância aos apelidos e não vai abdicar deles só porque está em tribunal). Mary tinha 16 anos quando foi violada, numa festa, por G.M.C, também de 16. Ela foi levada para uma cave escura e, para começar, foi borrifada com ambientador e espancada no rabo, perante vários convidados. No meu tempo de escola, as festas de garagem, felizmente, só implicavam dançar slows ao som da banda sonora do Titanic. Era penoso, mas não tão grave. Depois disto, G.M.C ficou a sós com Mary e fez o que qualquer cavalheiro faria perante uma donzela que deseja beijar: não, não a levou a casa, cobrindo-a com o seu casaco... violou-a e documentou o momento, para mais tarde partilhar com os amigos. Ambos tinham bebido mas, mesmo depois de passarem os efeitos da ressaca, vários dias mais tarde, G (vou dispensar os apelidos, só para o enervar), enviou as imagens aos amigos com a seguinte descrição: "quando a tua primeira vez é uma violação". Pronto, foi esta a história de final infeliz. Final esse que só chegaria no tribunal, quando o meritíssimo Troiano (chamo-lhe meritíssimo para não lhe chamar outra coisa) considerou que não foi propriamente uma violação, e que o rapaz merece perdão por ser das tais "boas famílias" e mais: "um potencial candidato às melhores universidades", sendo que tal acusação poderia destruir-lhe a vida. Parece-me que o que lhe pode destruir a vida é o ato praticado, e não a acusação acerca desse (f)acto. Mais: como sou otimista, não acredito sequer que lhe destruísse a vida, acho que seria uma excelente oportunidade para aprender qualquer coisa (matérias que não se ensinam na faculdade) e para se tornar uma pessoa decente. Assim, o único ensinamento que retirou disto é que conseguirá sempre safar-se. É o mesmo ar de impunidade que se respira ali para os lados da Quinta da Marinha, mesmo quando se está, desafortunadamente, de pulseira eletrónica na piscina de uma mansão (será que é à prova de água?). Falamos muito em homofobia, racismo, misoginia, mas a verdade é que, acima de todas essas manifestações de ignorância (não vejo que possam ser outra coisa), está o maior preconceito de todos: o famoso "horror a pobre" de que sofria a personagem de Miguel Falabella na sitcom "Sai de baixo". E devia sofrer mesmo muito, porque o que não falta no Brasil é gente pobre. E são - e serão - sempre esses os mais discriminados, independentemente da cor ou do género. Acredito que alguém que pertença a uma minoria racial, se for multimilionário, dificilmente sentirá o racismo na pele. Passará por cima dele no seu jipe blindado, a alta velocidade. Tal como as mulheres ricas sentirão menos a discriminação ou os abusos por parte dos homens do que uma trabalhadora de uma qualquer corticeira. Nunca concordei com a ideia de "querer é poder", acredito mais que "dinheiro é poder". O dinheiro, parecendo que não, é mais forte que o querer. O querer não paga contas de supermercado. É por isso que constantemente nos chocamos com casos de gente que é condenada por ter roubado um champô no Pingo Doce, enquanto na comarca ali ao lado um qualquer tubarão é absolvido, ou fica com pena suspensa, por ter desviado uma tranche de dinheiro que dava para abrir 127 hipermercados. Daqueles com uma gigantesca secção gourmet.

Joana Marques

Até que a compostagem nos separe

Esta semana chegaram, dos EUA, notícias surpreendentes. E nem me refiro ao conflito de Donald Trump com a Huawei, que me faz lembrar a relação problemática que a minha avó tem com o seu telemóvel de teclas gigantes. Ela diz sempre que não teve culpa, embora eu saiba que só pode ter sido ela a errar quatro vezes o código PUK. A notícia que me chocou é mais analógica... artesanal, mesmo: Washington vai tornar-se no primeiro estado norte-americano a permitir a compostagem humana. Até aqui a morte era um assunto bem resolvido, havia duas hipóteses possíveis para o corpo: ou se enterra ou se crema, e nós vivíamos bem com isso. Ou morríamos, neste caso. Só tínhamos de saber se éramos mais adeptos de ir desta para melhor inteiros ou às peças. Aliás confesso que demorei um pouco a habituar-me à ideia de cremação: o acto de reduzir um ente querido a cinzas, como se ele em vida tivesse sido um SG Ventil, arrepia-me um bocado...