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Joana Marques

A travessia de Greta Thunberg

Greta Thunberg chegou a Nova Iorque. Finalmente! Demorou 360 horas a percorrer um trajeto que, por via aérea, já se faz em oito, mas tudo bem, foram só 352 horas a mais... o que importa isso quando se está a salvar o planeta? Os ecologistas têm boas intenções mas em termos de salvamentos são muito demorados. Se algum dia tiver o infortúnio de estar a afogar-me em alto-mar, espero que a Greta não esteja por perto... Ela recusaria a mota de água como meio de transporte e ocupar-se-ia a recolher embalagens de plástico do oceano enquanto eu estrebuchava. Atenção, ao contrário do que possa parecer, eu admiro a Greta Thunberg. Dentro da sua categoria - "adolescentes" - é capaz de ser das mais astutas que conheço.

Joana Marques

Fátima, Futebol e Festivais

Não há como fugir-lhe, seremos sempre o país dos três F. Ainda que as vogais e consoantes à frente do F possam mudar. Neste momento diria que somos a nação de Fátima, Futebol e... Festivais de verão. E mesmo Fátima só não está em perigo de ser substituída por Facebook porque o próprio Facebook já foi trocado pelo Instagram. Assim ficaria o país do I e dos dois F, o que não soa tão bem. Ficávamos "IFF", o que faria de nós, em inglês, o país do "se". Não deixa de ser verdade. É a velha história do "se cá nevasse fazia-se cá ski" (sempre quis citar os Salada de Frutas neste espaço de opinião). A verdade é que acaba sempre por não nevar e, mesmo que nevasse, não estaríamos prontos para o ski, como não estamos prontos para os incêndios que surgem sempre na mesma altura do ano. Teríamos de improvisar, fazendo uns skis artesanais que funcionariam tão bem como o SIRESP. Mas esqueçamos essa outra tradição estival que é deixar arder preciosos pedaços de terra e foquemo-nos na mais inofensiva: os festivais de verão. Podemos até não ter verão, pode haver chuva, granizo e, quem sabe, a tal neve que há tanto esperamos, para poder esquiar... mas teremos sempre festivais. Eles estão para os portugueses como Paris está para Rick e Ilsa, no Casablanca. Não deve haver, por esse Mundo fora, um país que tenha mais festivais de música per capita. Se começássemos a dar mais valor a esse índice do que ao PIB, abandonávamos logo a cauda da Europa. Aliás, faríamos esse percurso rumo ao topo às cavalitas de alguém, que é o meio de transporte mais usado em festivais. E felizmente só aí. O que seria os rapazes terem de alancar com as namoradas aos ombros nas filas da Loja do Cidadão... Com tanto evento, depois do velho "pobres mas honrados" poderíamos ser os "pobres mas divertidos". Croka"s Rock em Oliveira do Arda, Woodrock na Praia de Quiaios, Zigurfest em Lamego... os festivais de verão devem ser a única área em que conseguimos, efetivamente, descentralizar. Isto já para não falar do Bardoada e Ajcoi, no Pinhal Novo. Quis dar mais destaque a este porque acho que o nome merece! Temos muitas terras sem parque infantil, como acontecia outrora em Sobral de Monte Agraço, e ainda mais sem maternidades, mas certames e festivais não nos faltam! Há dias houve uma grávida do Algarve que teve de ir até Beja para dar à luz e daí foi enviada para Évora. É o chamado "vá para fora cá dentro" que deve ser especialmente enervante quando se pretende que uma criança que está dentro há nove meses vá para fora. Mais valia ter aguentado mais um mês e desfrutar dos festivais. Até porque agora já há alguns com zonas para grávidas! São verdadeiras cidades, faz lembrar os cruzeiros, mas com menos idosos. Será que já criaram áreas para idosos também? Se existir, é para lá que quero ir. Tenho tanta paciência para festivais como uma senhora de 90 anos. Acho que é poeira a mais, calor a mais quando se chega, frio a mais quando se vem embora, gente a mais, euforia a mais, filas a mais, para receber brindes a mais, que vão completar os "looks festivaleiros" que as pessoas pensam estar "demais" mas só nos levam a pensar "menos, por favor". E lá pelo meio há música, claro, mas muito longe... a não ser para quem foi para a porta do festival às 3 da tarde e correu para junto do palco, aguentando estoicamente e sentindo aquela adrenalina "será que é desta que fico aqui esmagado contra as grades, ou é só mais um dia em que passo 12 horas sem urinar?". Quem fica mais para trás, e vê os artistas, a verdadeira razão do festival existir, na linha do horizonte, como se fossem do tamanho de um Pollypocket, tem de se entreter com outros passatempos. O mais comum, e também o mais desafiante, é o "encontra um amigo também". Dos milhares de pessoas que encontramos no recinto, há pelo menos metade que passa a noite ao telemóvel a tentar localizar um amigo. "Estou atrás da Super Bock, à esquerda, de frente para o palco", grita o Raul. Não se ouve bem porque há uma banda qualquer a fazer barulho. De repente replicamos as conversas do verão de 93, junto à Bola da Nivea. Quando finalmente o encontramos, está a soar o último acorde da última música... e lembramo-nos que nem gostamos assim tanto do Raul. É um chato e vamos ter de esperar por um táxi durante 2 horas com ele...

Joana Marques

SOS Fascismo

Não quero falar sobre o artigo de opinião de Maria de Fátima Bonifácio, porque ia com certeza repetir coisas que já foram ditas no 728 artigos de opinião sobre a opinião de Bonifácio. Li todos os que pude, claro, porque aprecio uma boa polémica, e nem sempre o "Público" é fértil nessa matéria. E se descobríssemos agora que isto tinha sido uma grande manobra de marketing do jornal? Tirava-lhes o chapéu. E ficava aliviada, porque custa a crer que uma historiadora parta do exemplo de uma "empregada negra do meu prédio" para concluir que "os africanos são abertamente racistas". Mas não, aparentemente o texto não era a gozar, o que é pena, para a classe dos humoristas e para a dos historiadores, em simultâneo. Há muito tempo que um texto não era tão debatido (e rebatido) e isso, quanto a mim, era razão suficiente para justificar a sua existência. Se, ainda que a partir de uma qualquer barbaridade, as pessoas refletiram, discutiram, contra-argumentaram, já valeu a pena.

Joana Marques

Pobre "Mary"

Trago boas notícias para o juiz Neto de Moura! Encontrei-lhe uma alma gémea do outro lado do Atlântico. E com a vantagem de não se tratar de uma mulher, esse ser repleto de pecado! O homólogo de Moura chama-se James Troiano e, ficámos esta semana a saber, absolveu um violador por ser de "boas famílias". Vamos por partes: o caso remonta a 2017, mas veio agora a público porque Troiano foi alvo de uma repreensão do tribunal de recurso. É o equivalente americano à advertência aplicada pelo Conselho de Magistratura a Neto de Moura. Repreensões, advertências, tudo castigos severos para juízes com decisões (e justificações) incompreensíveis. É mais ou menos como fazer uma entrada a pés juntos e não ver sequer o amarelo, levar só um raspanete do fiscal de linha. James Troiano julgou o caso que opunha Mary (nome falso; lá como cá, todas as vítimas são Maria) e a G.M.C (não é nome falso, são iniciais verdadeiras, que esta gente de boas famílias dá muita importância aos apelidos e não vai abdicar deles só porque está em tribunal). Mary tinha 16 anos quando foi violada, numa festa, por G.M.C, também de 16. Ela foi levada para uma cave escura e, para começar, foi borrifada com ambientador e espancada no rabo, perante vários convidados. No meu tempo de escola, as festas de garagem, felizmente, só implicavam dançar slows ao som da banda sonora do Titanic. Era penoso, mas não tão grave. Depois disto, G.M.C ficou a sós com Mary e fez o que qualquer cavalheiro faria perante uma donzela que deseja beijar: não, não a levou a casa, cobrindo-a com o seu casaco... violou-a e documentou o momento, para mais tarde partilhar com os amigos. Ambos tinham bebido mas, mesmo depois de passarem os efeitos da ressaca, vários dias mais tarde, G (vou dispensar os apelidos, só para o enervar), enviou as imagens aos amigos com a seguinte descrição: "quando a tua primeira vez é uma violação". Pronto, foi esta a história de final infeliz. Final esse que só chegaria no tribunal, quando o meritíssimo Troiano (chamo-lhe meritíssimo para não lhe chamar outra coisa) considerou que não foi propriamente uma violação, e que o rapaz merece perdão por ser das tais "boas famílias" e mais: "um potencial candidato às melhores universidades", sendo que tal acusação poderia destruir-lhe a vida. Parece-me que o que lhe pode destruir a vida é o ato praticado, e não a acusação acerca desse (f)acto. Mais: como sou otimista, não acredito sequer que lhe destruísse a vida, acho que seria uma excelente oportunidade para aprender qualquer coisa (matérias que não se ensinam na faculdade) e para se tornar uma pessoa decente. Assim, o único ensinamento que retirou disto é que conseguirá sempre safar-se. É o mesmo ar de impunidade que se respira ali para os lados da Quinta da Marinha, mesmo quando se está, desafortunadamente, de pulseira eletrónica na piscina de uma mansão (será que é à prova de água?). Falamos muito em homofobia, racismo, misoginia, mas a verdade é que, acima de todas essas manifestações de ignorância (não vejo que possam ser outra coisa), está o maior preconceito de todos: o famoso "horror a pobre" de que sofria a personagem de Miguel Falabella na sitcom "Sai de baixo". E devia sofrer mesmo muito, porque o que não falta no Brasil é gente pobre. E são - e serão - sempre esses os mais discriminados, independentemente da cor ou do género. Acredito que alguém que pertença a uma minoria racial, se for multimilionário, dificilmente sentirá o racismo na pele. Passará por cima dele no seu jipe blindado, a alta velocidade. Tal como as mulheres ricas sentirão menos a discriminação ou os abusos por parte dos homens do que uma trabalhadora de uma qualquer corticeira. Nunca concordei com a ideia de "querer é poder", acredito mais que "dinheiro é poder". O dinheiro, parecendo que não, é mais forte que o querer. O querer não paga contas de supermercado. É por isso que constantemente nos chocamos com casos de gente que é condenada por ter roubado um champô no Pingo Doce, enquanto na comarca ali ao lado um qualquer tubarão é absolvido, ou fica com pena suspensa, por ter desviado uma tranche de dinheiro que dava para abrir 127 hipermercados. Daqueles com uma gigantesca secção gourmet.

Joana Marques

Até que a compostagem nos separe

Esta semana chegaram, dos EUA, notícias surpreendentes. E nem me refiro ao conflito de Donald Trump com a Huawei, que me faz lembrar a relação problemática que a minha avó tem com o seu telemóvel de teclas gigantes. Ela diz sempre que não teve culpa, embora eu saiba que só pode ter sido ela a errar quatro vezes o código PUK. A notícia que me chocou é mais analógica... artesanal, mesmo: Washington vai tornar-se no primeiro estado norte-americano a permitir a compostagem humana. Até aqui a morte era um assunto bem resolvido, havia duas hipóteses possíveis para o corpo: ou se enterra ou se crema, e nós vivíamos bem com isso. Ou morríamos, neste caso. Só tínhamos de saber se éramos mais adeptos de ir desta para melhor inteiros ou às peças. Aliás confesso que demorei um pouco a habituar-me à ideia de cremação: o acto de reduzir um ente querido a cinzas, como se ele em vida tivesse sido um SG Ventil, arrepia-me um bocado...