O Jogo ao Vivo

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Joana Marques

Praia de sonho

Nunca falei publicamente sobre isto mas acho que chegou a hora: durante muitos anos, demasiados anos, senti-me discriminada, fui alvo de olhares preconceituosos e tive de lidar com o peso desse julgamento dos outros, por ser diferente deles. Faziam-me sentir mal na minha pele: esta pele tom de lula, contrastando com a de todos os meus amigos, que de maio a outubro ostentavam um pantone 479, que é aquele tom de castanho que Cinha Jardim apresenta o ano inteiro. Se na adolescência tinha medo de o confessar, na idade adulta passei a assumi-lo sem medos. Mais do que sair do armário, saí daquele Volkswagen Lupo em que ia com as minhas amigas para a Costa da Caparica. Pedi que não me incluíssem mais nesses planos, admiti de uma vez por todas, perante a sociedade portuguesa, ainda tão conservadora nessa matéria, que não gostava de praia. Ser português e não gostar de praia é quase um crime de lesa-pátria. Acredito que os únicos a experimentar semelhante sensação são os que admitem não gostar de futebol. Se bem que, nesse caso, abre-se sempre uma mui sexista exceção para as mulheres.

Joana Marques

O óbice da máscara de Ferro

Ontem, assinalou-se o 25 de Abril na Assembleia da República e nas salas, marquises e quintais de vários portugueses. Escolhi o verbo "assinalar" porque penso que o "comemorar" trouxe algum ruído à discussão. Ruído que Ferro Rodrigues resolveu alimentar. O presidente da Assembleia da República faz lembrar aqueles adolescentes que desafiam os encarregados de educação, prometendo fazer asneiras muito piores do que aquelas que a sua bravura permite. A ameaça "vou fazer a mala, sair de casa e nunca mais vos falo!", normalmente traduz-se em qualquer coisa como: jovem sai de casa às 18 horas e volta às quatro da manhã, quando se acabou o dinheiro e está um bocadinho maldisposto, a precisar que a mãe lhe faça uma canja. É desta forma que deve ser entendida aquela exclamação de Ferro Rodrigues, em resposta a João Almeida: "Há uma grande maioria neste Parlamento que quer celebrar o 25 de Abril e vamos celebrar o 25 de Abril!". Dito assim parecia que íamos ter bar aberto, bola de espelhos, música até às tantas. Uma pessoa até fica desiludida, quando vê que é apenas uma sessão solene. Se bem que o convite à Capitães de Abril parece ao mesmo tempo uma provocação e uma tentativa de homicídio: então vamos chamar membros da população de risco para saírem de casa e se enfiarem num espaço fechado? Enquanto fazem pirraça a todos os outros velhinhos, que nem sequer podem jogar damas no jardim? Só porque uns participaram num golpe de Estado e outros não? Acho mal.