Opinião

Carta aberta à carta aberta

Carta aberta à carta aberta

Li, com algum espanto, a Carta aberta às televisões generalistas, publicada esta semana, e assinada por uma série de personalidades ilustres. Digo "com espanto" porque a última vez que caí no erro de tentar interferir na programação de um canal de TV foi há 31 anos, quando mandatei o meu irmão mais velho, à época com 9 anos, para ligar para a RTP. Tinham prometido que naquela manhã de sábado exibiriam "As aventuras de Babar" e não cumpriram. Reclamar foi uma perda de tempo, percebo-o agora.

Aprendi, naquela manhã de inverno de 1990, o primeiro mandamento da vida em sociedade: "não ligarás para estações de televisão". Atualizei-o mais tarde para "a não ser que seja para um número começado por 760, pois nesse caso poderás vir a ganhar um magnífico automóvel". Continuo a achar que o local próprio para considerações sobre conteúdos televisivos é a página "opinião do leitor" da "TV Guia", mas respeito os signatários desta carta que, dado terem todos estudos superiores, preferiram o jornal "Público". A vantagem de ser uma carta aberta é que todos a pudemos ler, antes de se transformar em bolinha de papel amachucado, no caixote dos provedores dos vários canais. Estou a brincar, os provedores respeitam muito os telespectadores. Eu é que não. Pior do que o texto da carta é o subtexto. É esse que me levanta algumas dúvidas, que aqui vou deixar registadas, na esperança que me respondam (pode ser em carta fechada).

Começam por dizer: "sabemos que há uma pandemia - que o SARS-CoV-2, em vez de se deixar ficar a dizimar pessoas no chamado Terceiro Mundo, resolveu ser mais igualitário e fazer pesadas baixas em países menos habituados a essas crises sanitárias". Será isto uma crítica ao facto de os surtos de ébola na República Democrática do Congo nunca terem sido notícia de abertura nos noticiários portugueses?

De seguida acrescentam: "Sabemos que não há poções mágicas - as vacinas não se fazem à velocidade desejada e as farmacêuticas são poderosas entidades mercantis". Querem com isto dizer que a maléfica indústria farmacêutica, além de responsável por todos os outros males do Mundo, é também culpada da falta de qualidade da informação nas TV generalistas portuguesas? Ou consideram que estão conluiadas, visto que a TV passa agora o tempo a fazer publicidade gratuita à AstraZeneca?

A carta avança depois para exemplos mais concretos, o que é de louvar. Assinala, por exemplo, a "excessiva duração dos telejornais". Pergunto: veem um telejornal como se fosse um filme no cinema, em que têm vergonha de abandonar a sala antes do fim quando não estão a gostar? Dizem ainda "não aceitamos o tom agressivo, quase inquisitorial, usado em algumas entrevistas, condicionando o pensamento e as respostas dos entrevistados". Não acham que dizer "não aceitamos", nomeadamente quando estamos a falar de empresas privadas de Comunicação Social, é inaceitável? E não é a única coisa que não aceitam: "não podemos aceitar o apontar incessante de culpados, os libelos acusatórios contra responsáveis do Governo e da DGS, as pseudonotícias (que só contribuem para lançar o pânico) sobre o "caos" nos hospitais. Mais duas perguntas: têm amigos no Governo? E não têm amigos no SNS? Outra coisa que não aceitam: "a sistemática invasão dos espaços hospitalares, incluindo enfermarias, a falta de respeito pela privacidade dos doentes". Não estarão a confundir os telejornais com o Facebook dos "Jornalistas pela Verdade"? Estão ainda contra "a ladainha dos números de infetados e mortos que acaba por os banalizar". O que propõem? Anunciar o resultado só no fim? E depois aplicamos o mesmo método ao futebol? Já imagino o treinador no balneário, ao intervalo: "não sei quantos há no marcador, não contei, para não banalizar os golos, mas a nossa estratégia para a 2.a parte vai ser esta...". Os autores da carta criticam ainda o excessivo "tempo de antena dado a falsos especialistas". Ok, mas porque é que não falaram do Nuno Rogeiro mais cedo? "Não aceitamos a obsessão opinativa, destinada a condicionar a receção da notícia". Aqui a pergunta é mais simples: acham que os portugueses são estúpidos? Concordo com uma única passagem da carta, já que também defendo o fim das "imagens, repetidas até à náusea, de agulhas a serem espetadas em braços". Mas é só porque me faz muita impressão ver picas. Passei a vida inteira a evitar olhar e agora é impossível escapar-lhe. De resto acho que cada canal generalista deve fazer o que bem entender. E que a RTP deve repor o Babar.

*Humorista

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