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Opinião

A oitava marca

Para celebrar os sete anos de mando, António Costa juntou os fiéis em Lisboa. A encenação, não fora dar-se o caso de o evento ter decorrido dentro de portas - na antiga estação de onde eu seguia de barco para o Barreiro, e, depois, para a recruta em Tavira, de comboio -, fazia lembrar as antigas "performances" de Sócrates, em geral organizadas numa espécie de barracas de luxo, à beira de uns metros de estrada inaugurados ou de um túnel. O PS chamou à coisa "7 anos/7 marcas" sem se rir. Pelo contrário, Costa jurou aos figurantes que isto vai ultrapassar o Leste europeu, logo no dia em que se soube estarmos com um PIB per capita inferior ao da Roménia. Mais. Andamos a crescer mais que a França, a Espanha e a Alemanha, dez vezes mais do que no ominoso "antigamente", sobretudo o do próprio PS. Enfrentámos "catástrofes naturais" (não sei se estava a incluir os seus três governos em tais calamidades). Estamos numa guerra presumivelmente contra a Rússia. Levamos com a inflação, mas temos garantida a "neutralidade carbónica" em 2050, etc., etc. Em suma, ironia do destino, voltámos para trás, para o velhíssimo "pelotão da frente", de novo recuperado junto aos cacilheiros pelo dr. Costa. Claro que o dr. Costa não explicou como é que conseguiu todas estas "vitórias" que ele, no tempo do sr. engenheiro e quando era comentador televisivo, designava por "sucessos sobre sucessos". Nunca se ouviu, por exemplo, a sigla BCE ou a preparação para as "7 marcas", iniciada ainda no XIX Governo Constitucional que, por acaso, salvara o país das "marcas" deixadas pelo mesmo PS da restaurada Estação Fluvial de Lisboa. Em compensação, o homem jurou pela "concórdia nacional", o "ADN" do PS, como nos antigos tempos da União Nacional, em que quem não é por nós dava jeito que fosse. Mesmo assim, os anos serão "duros". E Marcelo, noutro lado, até lhe acrescentou o "muito" para afirmar estar "muito atento àquilo que vai ser este ano de 2023". Nada de novo. Ele está sempre atento ao ano seguinte ao ano em vigor, e assim sucessivamente, com as bem-aventuranças que se conhecem. Até conseguiu que Costa se refastelasse, em Janeiro, numa maioria absoluta que permite, entre outras coisas, estas amenidades metafísicas sem o menor interesse para o país e para a realidade. Talvez pudéssemos aplicar a todos estes exercícios de pura frivolidade política uma frase, adaptada livremente por mim, de Gustave Flaubert, citado por Julian Barnes em "O papagaio de Flaubert". "O sonho da democracia é levar o povo a atingir o nível da estupidez conseguido pela burguesia". Há-se ser a oitava marca.

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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*Jurista

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