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Opinião

A República ponto dois

A República ponto dois

A imagem é elucidativa. No palanque, enquanto discursava o presidente da Câmara de Lisboa, Santos Silva, Marcelo e Costa, por esta ordem, contemplavam, cada qual, o seu infinito. S. Silva olhava para o telemóvel, Marcelo para lado nenhum e Costa torcia-se levemente para a sua esquerda, incomodado com o sol. Em comum, os três exibiam, inconscientemente, a mesma comissura de lábios, popularmente conhecida pela "boca de cu de galinha". Foi há menos de uma semana, no 5 de Outubro de Lisboa. Comemoravam-se os 112 anos da implantação da ditadura do Partido Republicano Português (PRP), chefiada até Sidónio Pais pelo doutor Afonso Costa, com a complacência dos "vultos" que encontramos por aí espalhados em estatuária vária, e em nomes de ruas e avenidas. Ao presidente "desta" República, o alheado Marcelo, deu-lhe para comparar a excelência de hoje com a falta de qualidade democrática e cidadã em 1922, altura em que o outro Costa e os seus apaniguados recuperaram o poder, já sob a forma de "partido democrático" - que de democrático nada tinha. Esteve bem. É que as perguntas são sempre as mesmas, tal como Vasco Pulido Valente as formulou aquando do centenário da República, versão 1ª. "Como é possível pedir aos partidos de uma democracia liberal que festejem uma ditadura terrorista em que reinavam "carbonários", vigilantes de vário género e pêlo e a "formiga branca" (como lhe chamavam) do jacobinismo? Como é possível ao Estado da tolerância e da aceitação do "outro" ir de repente mostrar o seu respeito por uma ideologia cuja essência era a erradicação da Igreja Católica? Um regime que "não legou ao futuro nenhum herói. Afonso Costa, António José d"Almeida, Brito Camacho, Bernardino Machado, António Maria da Silva eram visceralmente odiados por todo o país. Só Sidónio, que os prendeu e expulsou, conseguiu, por um ano, alguma popularidade; e esse foi morto por um devoto da Maçonaria". Porque recordo isto? Porque o regime actual nunca esteve tão próximo da corrupção moral e política da I República como agora. O PS, rapace e autoritário, domina o Estado e o país como o PRP fazia. O presidente não é "eleito" pelo Parlamento, e pelo partido dominante, mas está inerme como alguns dos seus ilustres antecessores citados, com a vantagem, meramente pessoal, de ir arejar frequentemente a sua impotência política para o estrangeiro. E o da Assembleia da República é um prepotente democrático que não tenta sequer a isenção política a que o cargo o obriga. Os episódios dos governantes "incompatíveis" passam pela "bimby" da ética republicana como cães por vinha vindimada. Esta "República ponto dois" está pela hora da nossa morte. Não, infelizmente, da dela.

*Jurista

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o autor escreve segundo a antiga ortografia

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