O Jogo ao Vivo

Opinião

Carlos Moedas

Os leitores fora de Lisboa com certeza perdoarão a circunstância de lhes falar, precisamente, de Lisboa. Sucede que, se nada houver em contrário, na capital, como em todas as cidades do continente e ilhas, em Outubro ocorrem eleições autárquicas. E, se no Porto, para não ir mais longe, dificilmente Rui Moreira, recandidatando-se, não será reeleito para um segundo mandato, já em Lisboa há mais em causa.

Vai para catorze anos que a Câmara de Lisboa está nas mãos do PS, e dos seus aliados pseudo-independentes, todos oriundos da Esquerda. Costa largou a Câmara a 1 de Abril de 2015 para se dedicar à conquista do poder central com os resultados que se conhecem. Permaneceu nos Paços do Concelho, como segundo quase primeiro, o arquitecto Manuel Salgado que vicissitudes judiciais recentes obrigaram a demitir-se da vereação. Os mandatos de Costa e de Medina não teriam sido os mesmos sem Salgado. E Salgado não teria sido o que foi sem a caução política do actual primeiro-ministro e de Medina. São catorze anos de desprezo pela vida comum dos lisboetas, ao serviço de floreados e da imagem para terceiros verem. Os lisboetas foram expulsos do centro de Lisboa, andem de carro, a pé ou de bicicleta. Fizeram-se alterações no terreno quase exclusivamente a pensar no turismo. Na Baixa, em cada quatro edifícios, três são hotéis ou equivalentes. A obsessão estúpida por ciclovias e pilaretes tornou a cidade infrequentável. A Polícia Municipal é um sorvedouro indirecto de receita municipal, sempre à cata de possibilidades de reboque por dá cá aquela palha. Já a CML, "elefantizada" por todo o lado, constitui um formoso centro de emprego socialista. E dos muitos complacentes da falsa oposição que por lá se arrastam. São todos primos e primas políticos, socialistas ou não. Não lhes ocorre outro desígnio ou destino que estar e ficar. Não tenho nada contra uma cidade virada para fora e cosmopolita. Tenho tudo contra uma edilidade que trata os munícipes como atrasados mentais em nome de interesses transversais e da pura farsa. Carlos Moedas - se o deixarem trabalhar em paz, se o primarismo caciqueiro partidário não se impuser e se ele fizer o que sabe melhor, que é constituir equipas dinâmicas e tecnicamente preparadas - será a única alternativa política e cultural séria a Medina. Porque Medina é do passado de catorze anos camarários. Moedas não vem para brincar aos partidos porque não é disso. Tem biografia própria. E a pandemia obriga a repensar a gestão de Lisboa, de alto a baixo, sem segundas, terceiras ou quartas intenções. Força, Carlos.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

*Jurista

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG