Opinião

Costa e Marx

Só o partido do Governo aprovou o orçamento para 2021. Os restantes grupos parlamentares, e deputados avulsos, votaram contra ou abstiveram-se.

Quando chegarmos ao primeiro dia de Janeiro, o documento estará, pela natureza das coisas e da pandemia, ultrapassado. Apesar dos tremeliques mediáticos, a verdade é que o processo de fiabilidade dos resultados das várias vacinas, bem como da sua gestão, mal começou. Depois, há o problema da "bazuca" financeira que a União Europeia disponibiliza aos estados-membros e que politicamente anda em bolandas por falta da famosa unanimidade no Conselho. Pelo menos dois governos, o da Hungria e o da Polónia, ameaçam vetar a "bazuca" se os outros insistirem demasiado em, chamemos-lhe assim, "questões de princípio". Nem o sr. Orban nem o seu congénere polaco querem ouvir falar em nexos de causalidade entre a defesa do "Estado de direito" e "bufunfa" a fundo perdido ou achado. Curiosamente, ou talvez não, o nosso Governo, nas reuniões preparatórias, ficou na fama de ter sido "muito crítico" da associação das questões de massa às questões do "Estado de direito" pela Comissão Europeia. "Do nosso lado", foi assim que o anterior ministro dos Negócios Estrangeiros da Polónia definiu a posição portuguesa em matérias orçamentais versus Estado de direito. O nosso melífluo MNE, Santos Silva, preferiu a ambiguidade da expressão "equilíbrio de um consenso", considerando que o respeito pelo Estado de direito "sempre foi uma linha vermelha" do Governo português. O que nos traz de volta ao Orçamento. Costa também desenhou "linhas vermelhas". A primeira, mais alaranjada, consistia em nunca precisar do PSD para nada. Se precisasse, acabava o Governo. Ora, o PSD foi assediado de todas as maneiras e feitios para não contrariar a rubrica prevista de 500 milhões de euros para o Novo Banco, pela via indirecta do famoso "fundo de resolução". Telefonemas aflitos foram feitos ao líder do CDS para o mesmo efeito. Mas o melhor, ou pior, conforme a perspectiva, estava para vir. As televisões filmaram o corrupio de deputados socialistas e de, pelo menos, um governante de volta do deputado Ventura para o "sensibilizar" a mudar o sentido de voto. Acabara outra "linha vermelha", a segunda de Costa em escassos meses. O Chega, afinal, é frequentável para o Governo e o PS. Só depende da ocasião. Parafraseando Groucho Marx, Costa tem princípios e "linhas vermelhas". Se não servirem, arranja outros e muda de linha.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Jurista

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