Opinião

Doze semanas e meia

O presidente da República completa noventa dias do segundo mandato. Começou, auspicioso, com um discurso notável na tomada de posse. Prosseguiu com a aceitação recente, por parte de Ramalho Eanes, do convite para presidir às comemorações do cinquentenário do regime.

Os segundos mandatos, depois de Eanes, costumam ser o momento libertador dos presidentes reféns da revisão constitucional "ad hominem" de 1982. Se estiverem fartos dos governos, mesmo que os não possam derrubar, sentem-se mais soltos para os vigiar e criticar.

Soares, Sampaio e Cavaco deram cedo sinais de impaciência para com os primeiros-ministros. Sampaio foi mais longe e, recandidato, até exigiu a remoção de governantes do "guterrismo" então já decaído.

Cavaco não poupou Sócrates na segunda investidura. E Soares usou, com precisão cirúrgica, as "presidências abertas" para "denunciar" o cavaquismo. Marcelo, pelo contrário, e ao fim de cinco anos e três meses, parece persistir "confinado" a António Costa e ao PS. Preside, com leveza, equanimidade e soltura, a um Estado de amoralidade político-partidária em que a Situação é o que é - diariamente revelada na sua insolência autoritária - e a Oposição é nada.

É claro que não lhe compete usurpar lugares que pertencem ora a nulos abúlicos, como Rio. Ora a tartufos colaboracionistas, como a generalidade dos novos partidos. Ou, fundamentalmente, ao omnipresente Bloco, a vanguarda cultural e comunicacional da Situação.

Marcelo, desconfinado e vacinado, correu a visitar a Eslovénia e a Bulgária, terminando em Madrid ao lado de 20 mil espectadores de futebol. Para quê? Abençoar uma patética candidatura ibérica, isto é, espanhola, à organização de um campeonato qualquer de bola. Dias antes, criticara a ausência da "bolha inglesa", prometida pelo Governo, no Porto, precisamente por causa da bola. Acompanhámos tudo, à distância, e em campo aberto, pela televisão.

A ganapa da Presidência "assumiu totalmente os erros pela bolha". Porém, lá está, firme e hirta, sob a protecção de quem efectivamente manda, e não se fala mais nisso. O "amigo" Cabrita, o mesmo. O presidente preferiu inaugurar um programa na televisão pública com a sua presença. Até deu colinho à apresentadora, uma das muitas Oprahzinhas de trazer por casa com que as televisões generalistas nos brindam diariamente.

PUB

Aproxima-se o Dia de Portugal e estou com Jorge de Sena, o protagonista absoluto do único dia digno desse nome neste regime fracassado. Em amargura, e na amizade pelo presidente, na "dor de haver nascido em Portugal/sem mais remédio que trazê-lo na alma".

O autor escreve segundo a antiga ortografia

*Jurista

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG