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Eleições presidenciais - o pacto de desconfiança

Eleições presidenciais - o pacto de desconfiança

Em apenas uma semana, tudo mudou. Não porque fosse imprevisível, mas a verdade é que o país vai regressar ao confinamento por causa da pandemia. O regime tratou o assunto sempre mais num registo político e administrativo do que científico.

Como se o vírus, e a sua propagação social, pudesse ser detido por decretos, "estados" intermitentes "de emergência", planos pífios de vacinação ou voluntarismos risíveis. O presidente da República, e recandidato ao cargo, falou num "pacto de confiança com os portugueses" aquando das "aberturas" de Dezembro. Num debate televisivo, reconheceu que o "pacto" falhou. Não podia fazer outra coisa. Dir-se-á que a situação é comum na Europa, para não ir mais longe. Será. Mas relembro que, logo em Maio, começou a sentir-se no ar um perfume de relaxamento. Antes da época balnear oficial, já o próprio regime se exibia de tanga acalorada e a sugerir "larguezas" ao indigenato. O indigenato correspondeu até Dezembro, mesmo com os travões políticos e administrativos das "medidas" dos "estados de emergência". Não ocorreu a ninguém, num sistema tão parlamentarizado como o nosso - que em horas, minutos e poucos dias aprova e reprova o que quer -, uma revisão constitucional, rápida e oportuna, que, através de duas vírgulas e outras tantas frases, permitisse alterar a data das presidenciais. Ou melhor. Ocorreu. Todavia, informou o presidente recandidato, todos os partidos se opuseram. Salvo agora, com a casa a arder, em que pelo menos Rui Rio se afirmou aberto a uma "rapidinha". Não haverá. O confinamento e o final dos debates televisivos ditaram praticamente o fim das eleições presidenciais que, aliás, não eram já por si famosas. Marcelo despirá o fato-macaco de candidato, envergado por pouco tempo em alguns momentos dos debates, e usará permanentemente o fato presidencial até ao dia em que, como os outros candidatos e um não candidato, aparecerá no boletim de voto. Nesse dia, 24 de Janeiro, suspende-se o confinamento para as pessoas irem votar. É outro "pacto de confiança". O regime confia que as pessoas, obrigadas a ir para casa às 13 horas aos fins de semana e, por altura da eleição, a mal poder sair dela, estarão alegremente na rua, ao fresco e em filas, entre as 8 e as 19 horas desse domingo, para votar. Tanto mais quanto num processo eleitoral dificultado por ele mesmo no que respeita à votação de emigrantes e de portugueses directa ou indirectamente afectados pela pandemia. Se eu fosse mauzinho, diria que é bem feito o aumento da abstenção. Como sou democrata, tenho pena de sermos tratados permanentemente como poucochinhos. (continua)

*Jurista

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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