Opinião

Há algo podre no reino da Dinamarca

Há algo podre no reino da Dinamarca

Conta-se que determinado ministro da Educação Nacional, de governos de Salazar, costumava fazer o trajecto a pé de casa para o Ministério. Sucedia que o dignitário tinha por costume fazer "paragens" em todos os lavabos públicos que encontrava no caminho, uma coisa impossível nos dias de hoje uma vez que os fecharam praticamente todos. Disso foi informado Salazar por questões de segurança.

E a solução encontrada não passou pela remoção do ministro por "vadiagem" (um crime de que, por exemplo, Mário Cesariny era acusado todos os dias pelo Estado Novo), mas antes por mandar encerrar todos os mictórios públicos no caminho do ministro. Porque é que recordo este episódio da mitologia salazarista? Porque o Governo, que nem há um mês admitiu com indisfarçável alegria o recrutamento de mais 100 inspectores para o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), fez entretanto constar que, em vez da "reestruturação" pedida aos seus dirigentes, tenciona encerrá-lo e distribuir as respectivas atribuições pelas polícias civis. Para além disso, e na sequência de um relatório da Inspecção-Geral da Administração Interna focado no homicídio de um cidadão ucraniano, em Março, nas instalações do SEF do aeroporto de Lisboa, não se encontrou melhor expediente que o de colocar um "botão de pânico" na sala onde os estrangeiros são "interrogados" quando não entram, sem mais, em território nacional. Aquele assassinato num organismo do Estado português foi "tapado" pela pandemia. A conjugação de circunstâncias diversas - o "botão", as exigências da comissária para os Assuntos Internos da Comissão Europeia, entrevistas às televisões da viúva da vítima e o citado relatório com pouco mais de um mês - obrigou o Governo a pedir à directora-geral do SEF para sair, substituindo-a pelo seu "número dois", ex-chefe de gabinete do ministro da Administração Interna, e responsável, no SEF, pela tutela administrativa destes "centros provisórios de acolhimento" onde os factos se passaram. Fica-se com a sensação, sobretudo depois de António Costa ter "avocado" o assunto sob a forma da confiança política manifestada ao ministro, que se pode sacrificar tudo (o organismo público, as mais elementares regras de bom senso no desempenho de funções públicas, o respeito intransigente pelos direitos e garantias fundamentais em actividades policiais e conexas) em nome do nepotismo partidário e governativo, afinal uma e a mesma coisa. O reino da Dinamarca do dr. Costa apodreceu sem regresso.

Jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG