1. À pura estupidez política, ou outra, deve responder-se, mesmo sem responder, com inteligência. Foi o que fez a antiga procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal, numa entrevista de fim de mandato. Não apenas pela substância, relacionada com a sua actividade profissional, mas, também, pela maneira ironicamente cortês com que descreveu, sem descrever, a peripécia miserável da sua substituição. Jurista proba, magistrada competente, corajosa, ciente das incapacidades e das vulnerabilidades da sociedade portuguesa, sem ser por conta do que aprendeu nos livros ou por demagogia, Marques Vidal, assim ela o quisesse, daria uma grande candidata livre ao mais alto cargo do Estado, tão tragicamente votado à vulgaridade e à irrelevância.
2. Soube-se ontem, depois de um "furacão dos pequeninos", que o Governo vai ser remodelado. Os orçamentos sectoriais, com que os novos ministros vão ter de trabalhar, são os que foram preparados pelos seus antecessores. Azeredo Lopes, demissionário na Defesa, fica mais referenciado por infelicidades do que pelo trabalho silencioso reflectido no orçamento que deixa para 2019 e noutras intervenções discretas em organismos sob a sua tutela. Costa entretanto promoveu dois amigos. Primeiro, o que já era adjunto para as negociatas de Estado, Siza Vieira, que fica adequadamente com a Economia, sonegando habilmente a Energia para a entregar ao inócuo que gere o Ambiente, não fosse notar-se ainda mais alguma "incompatibilidade" em Siza e para não desagradar ao regime. A segunda, Graça Fonseca, é elevada à Cultura com o orçamento pouco mais que zero do PIB que herda do nefelibata Mendes. Centeno, esse, continua a mandar no que importa: a execução "neoliberal" do orçamento, como deixou claro num artigo publicado ainda ontem neste jornal.
3. Rio e a sua mentalidade de preboste conduzem o PSD a um abismo de complacência com o Governo e o PS - e ao seu propriamente dito -, conseguindo anular algum efeito político que decorreria de o PSD ser o maior grupo parlamentar, cujo presidente foi insultado, sem um murmúrio de Rio, numa carta ordinária de Costa. Um a um, putativos candidatos substitutivos, individualmente considerados ou pouco mais, esperam a hora mais negra das legislativas de 2019. Rio não podia esperar melhores aliados.
O autor escreve segundo a antiga ortografia
*JURISTA
