Opinião

Os fantasmas da ópera

Os fantasmas da ópera

Portugal só possui um equipamento cultural especificamente construído para a ópera, inaugurado em 1793, com a ópera de Leal Moreira, "A saloia enamorada ou o remédio é casar": o Teatro Nacional de São Carlos.

Em 1940, Salazar dizia-o "a sala de visitas de Portugal". A guerra, a Segunda, e o pós-guerra empurraram o Teatro para um dos grandes da Europa, frequentado pelos melhores elencos e maestros da época, uma vez que os para lá da fronteira estavam interditos ou estavam em reconstrução. Terminado o longo e auspicioso período da "direcção vitalícia" (fora assim nomeado em 1946) de José de Figueiredo, o Teatro, nos anos 70 e 80, passou pelas boas mãos dos Pais/Freitas Branco, de Serra Formigal, de José Ribeiro da Fonte, de Paulo Ferreira de Castro e de Paolo Pinamonti, já neste século, com quem partilhei a direcção do Teatro entre 2002 e 2003. Pinamonti foi removido, mal e porcamente em 2007, pelo cacique ao serviço do PS na Cultura, Mário Vieira de Carvalho. Para a "gerir", o referido Carvalho inventou uma EPE chamada OPART onde fundiram os corpos técnicos e artísticos da Companhia Nacional de Bailado e do Teatro, mantendo as respectivas carreiras nas suas disparidades. São Carlos tem problemas estruturais por resolver desde que se tornou mais num "produto" de "experiências" de gestão do que teatro lírico. Empresa pública, fundação, instituto, "EPE", OPART ou outra coisa qualquer acumularam erros e vícios. Sempre defendi que, à semelhança do que aconteceu com outros congéneres europeus, o Teatro devia encerrar para mudar de "registo" e não apenas para obras. O ridículo foi atingido quando, um dia, fechou como empresa pública e abriu praticamente no dia seguinte como "fundação" para, dizia-se, celebrar o "bicentenário" e deixar um passivo de cerca de 1 milhão de euros em 1998. Sousa Franco tinha, é verdade, Carrilho e era informado. Centeno não tem ninguém e o ridículo regressou. Graça Fonseca e o presidente da OPART, em pleno processo negocial com aqueles corpos técnicos e artísticos, desapareceram para a China. Foram cancelados espectáculos por uma justíssima greve, com tudo o que isso acarreta. Estarão em causa 60 mil euros por causa das carreiras. Passaram a estar muito mais com os cancelamentos. De volta ao tugúrio, Fonseca e o presidente anunciaram deitar 3 milhões em obras para cima do Teatro. "Identificámos problemas e criámos soluções", escreveu ela. E o outro. Dois problemas sem solução.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

*JURISTA E MEMBRO DO PARTIDO ALIANÇA