Opinião

Repensar Marcelo

Algum tempo decorrido com Marcelo em Belém, escrevi aqui que ainda não tinha começado verdadeiramente o mandato. Isso durou, mais ou menos, até às tragédias dos incêndios do Verão e do Outono de 2017, embora o presidente repetisse ter estado empenhado numa misteriosa "descrispação" da sociedade portuguesa. Aparentemente, havia duas causas para "descrispar": Cavaco e Passos Coelho. O primeiro já tinha sido substituído por ele, mas Passos ficou ali a emperrar até Janeiro de 2018. O país, por causa da reacção de Marcelo aos incêndios, a Tancos e a outras infelicidades nacionais, pensou que o mandato finalmente começara e que a autoridade presidencial estava salva. Um discurso menos "optimista" valeu a cabeça de uma ministra que tinha pouca. E, mais tarde, a de um ministro da Defesa que teve de ser sacrificado em nome da pusilanimidade alheia, mesmo tendo-se posto a jeito. Veio entretanto, e para ficar, a chamada fase dos "apuramentos". Entre portas, banhos fluviais, visitas de Estado, após programas televisivos comprometedores, onde quer que fosse, lá estava - e está - o presidente a reclamar que se "apure tudo custe o que custar". Tudo isto se desenrola entre selfies, "afectos" e muita televisão por parte de quem, como ninguém, percebe dela. Em Angola, o "estilo" atingiu o cume. Marcelo foi o fazedor retroactivo do "amor" com a antiga colónia. Uns meses antes, ele e o Governo português tinham removido o "irritante" na pessoa de Joana Marques Vidal, uma substituição esdrúxula que nunca explicou devidamente. O sucesso da viagem só pode ser comparado com o das de Américo Tomás e de Marcello Caetano nos anos 60 e 70 do século passado. Em suma, Marcelo nunca chegou a começar o mandato. Trocou-o por um populismo institucional em que ele e o primeiro-ministro competem, juntos, pelo troféu da popularidade estatística, da anomia colectiva e do pensamento único. Mais de metade do calendário cumprido, já é possível um balanço presidencial. Pacheco Pereira fez o melhor deles na apresentação de uma hagiografia marcelista. Até porque foi vice-presidente de Marcelo, no PSD, e o primeiro a sair. Trinta e muitos anos de cinismo político não se abafam com "afectos" e "optimismo" delirante, a não ser em crédulos. A situação não escrutina Marcelo porque Marcelo é o seu recandidato natural. Repensá-lo, em 2021, exige antagonismo. Não tanto para lhe ganhar como para devolver dignidade política real ao cargo, fazendo por Marcelo o balanço que ele nunca fará.

Jurista

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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