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Opinião

Jorge de Sena, o intelectual total

Jorge de Sena, o intelectual total

Pelos padrões actuais, Jorge de Sena ainda poderia estar vivo e ter comemorado no sábado passado o seu centenário. Infelizmente morreu demasiado cedo, com menos de sessenta anos, nos EUA onde ensinava coisas nossas.

Fora engenheiro na Junta Autónoma de Estradas, calcorreou o país todo nessa qualidade ("em Portugal, eu andava tanto fora de casa, que às vezes mal via os meus filhos") enquanto ia editando, traduzindo, prefaciando, criticando e, sobretudo, escrevendo uma das mais intensas e graves poesias de toda a literatura portuguesa, uma poesia que, segundo Joaquim Manuel Magalhães, "teve a grande vitória de nos livrar de uma certa hegemonia de Pessoa". Emigrou, e essa condição dele em Portugal (nunca foi outra coisa cá até o regime, já neste século, colocar definitivamente as suas ossadas nos Prazeres, longe da promiscuidade "panteónica"), no Brasil e, finalmente, nos EUA talvez tivesse sido a única que conheceu e que lhe concederam. Sempre a custo, pois as "academias" de lá e de cá tinham horror à ideia de um engenheiro civil saber mais de Camões, do "mito" de Inês de Castro na literatura portuguesa - ou daquele Pessoa de que foi dos primeiros a intuir-lhe o fundamental numa famosa conferência em Dezembro de 1946 no Ateneu Comercial do Porto e, logo a seguir, em artigos sobre o Pessoa "inglês" - do que eles. Primeiro, a Direita do Estado Novo e os "neo-realeiros" do PC, a seguir a Esquerda que, de braço no ar na Faculdade de Letras de Lisboa do PREC, lhe barrou uma reparadora admissão, trataram sempre de o isolar na sua liberdade vertiginosa e incansável de intelectual puro, total, jamais devedor de seitas, beatérios literatos ou partidos. Em vida, Portugal fez-lhe apenas duas homenagens. A do n.o 59 da revista "O Tempo e o Modo", em 1968, e a de Ramalho Eanes, em Junho de 1977, que o trouxe, por sugestão de Vasco Pulido Valente, ao 10 de Junho na Guarda. Diziam-no megalómano, mas, como escreveu o meu amigo J. M. Magalhães, "a grandeza só pode pensar com grandeza de si própria". Na entrevista àquele número especial da "Tempo e o Modo", afirmou que "o problema não está em eu me considerar muito grande, mas sim em os outros serem, na maioria, tão pequenos", até porque "tenho a susceptibilidade dos exigentes e dos afáveis, honestamente afáveis". E continuava. "Não perdoo a ninguém a mediocridade, a estupidez, a vileza, a malignidade, a incultura, a suficiência, a intolerância, o espírito de compromisso, a cobardia moral". Que diria Sena, hoje, de um país e de um mundo que perderam, em palavras suas de Fevereiro de 1968, "toda a noção pública de pudor, de decência e de verdade"?

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Jurista