portugal em transe

Marcelo e os portugueses

Marcelo e os portugueses

Uma noite destas, à hora a que o presidente da República falou para renovar o estado de emergência, andava a passear o cão. Depois, porque evito televisão no sentido estrito do termo, apeteceu-me rever "A condessa descalça", com a irrepetível Ava Gardner. Começa, aliás, com um belo aviso em "off" pelo personagem interpretado por Humphrey Bogart: a vida comporta-se como se tivesse visto demasiados maus filmes.

Tem sido o caso de Portugal vai para um ano. Decidi, então, e ontem apenas, ver a alocução presidencial. Salvo uma entrevista atípica, tratou-se, creio, da primeira intervenção institucional de Marcelo depois de reeleito. O termo "portugueses" foi usado à exaustão na curta mensagem. Numa primeira parte, quando aludia aos "portugueses", queria sobretudo dizer "eu". Eu, Marcelo, compreendi que os apoios europeus são o que são. Quer os que estão no Hospital da Luz, quer as bazucas por vir. Que há atrasos nas vacinações que têm de acelerar em Abril. Que devem ser punidos os chicos-espertos que passam à frente do plano oficial de vacinações. Que não há eleições antecipadas, nem crises políticas artificiais que ele não deixa. Para Marcelo tudo está claro. Não pode haver Páscoas como no Natal. E Março, para já, vai ser igual a isto. Evitem-se "intervalos entre duas vagas" com aberturas mal preparadas e mal planeadas. Sem crises, sem governos de unidade ou de salvação nacional. Isto é, o Governo do PS tem um mandato necessário e suficiente para tratar disto, por muito que conviesse a Costa fazer uma fita: "não provocar crises, mesmo as mais sedutoras". Só no fim, os "portugueses" foram mesmo os portugueses - "a única grande razão de ser de nós termos orgulho em Portugal", rematou, patrioteiro e majestático, o presidente. Com a posse, no que ela tem de simbólico, embargada por causa da pandemia, Marcelo começou a estagiar para um segundo mandato necessariamente distinto do anterior. Ninguém o viu mais, depois da reeleição, fora num hospital militar, ao lado de Costa e da serigaita da Saúde. Nem tem de ver. O contrato do PR com os portugueses não é executivo. O contrato de Costa é, mesmo na interpretação mais rasca e nepotista em vigor. O de Marcelo é amplo, directo e unipessoal. Os "portugueses" não querem saber do PS de Costa e dos seus amigos para nada. O que Marcelo e os portugueses querem é que Costa pense menos no poder, na sua manutenção espúria, totalitária e ineficaz, e que governe sem desculpas. Depois se verá.

Jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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