Opinião

Marcelo por Marcelo

Marcelo, o amigo de sempre de Guterres, apareceu ontem entrevistado no "Público" por Maria João Avillez. Encerrou uma série de trabalhos dela sobre os "ismos" da política nacional. Como aparentemente não existe "marcelismo", ao contar a história de António Guterres, Marcelo acabou, no subtexto, por falar dele. Guterres e ele estão "ao serviço das pessoas".

Guterres e ele conseguiram "uma aproximação às pessoas como nenhum outro líder, nem Mário Soares". "Houve pessoas mais amadas do que" ele e Guterres, como Cavaco e Soares, os presidentes, note-se, ou Sá Carneiro. Ambos não suscitam grandes paixões ou grandes ódios políticos. Guterres e Marcelo terão "tido grandes frustrações, grandes decepções e grandes desilusões" pelo abismo entre o que quiseram fazer e o que não lhes foi possível fazer. Resumindo, são duas pessoas "hiperlúcidas" e "muito inteligentes", que "não precisam da política para viver, sendo independentes em relação a ela" - ninguém, todavia, se lembra de Guterres a fazer outra coisa senão política - e que, quando "intuem" que não conseguem "ir por determinado caminho", não vão, percebem que "não vale a pena". Guterres e Marcelo escolheram partidos diferentes. Segundo Vasco Pulido Valente, o primeiro só não foi para o PPD porque já lá estava Marcelo. E Marcelo já tinha "fundado" o PPD muito antes da sua fundação. Guterres governou inicialmente em abundância e festança. Acabaria prisioneiro da sua intrínseca pusilanimidade e do "sentido da "cruz" que parte do partido nunca lhe perdoou. O salto de "carmelita bem calçada" para bonzo da ONU era previsível. Marcelo apenas governou, e bem, o partido na oposição. E, enquanto ministro dos Assuntos Parlamentares de Balsemão, pilotou a revisão constitucional de 1982, da AD e do PS, que acabou por colocar a figura presidencial no "lugar" de um "conselho" que Guterres lhe terá dado. "Não faças nada, faz-te de morto, é o poder que perde, há-de chegar uma altura em que ele te cairá nas mãos". Isto a pensar em governos, evidentemente. Porque quanto a governos, Marcelo, o presidente, acedeu a responder apenas a "duas ou três" perguntas de Avillez. Ficámos a saber que o PR aprecia "furar balões" antes que inchem e rebentem. E que quer esta "situação" a borregar até 2023. Ou seja, nada de "política" ou "crises" que beneficiem o "infractor", António Costa. Por consequência, estará atento à aplicação e gestão dos milhões PRR não vá o ouro parar à mão dos suspeitos do costume. Aqui já não era Guterres por Marcelo, e Marcelo pelos dois. É Marcelo por Marcelo.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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