Opinião

O "dono disto tudo"

Quando António Costa usurpou, removendo-o com ampla brutalidade política, o lugar de António José Seguro, Vasco Pulido Valente escreveu que há muito não aparecia um cacique da envergadura de Costa.

Legitimou-se mediante a armadilha que Seguro montou a si próprio com as "directas". A seguir, quando perdeu para a coligação de direita, buscou a legitimidade na secretaria parlamentar. Uma vez instalado em S. Bento, graças ao Bloco e ao PC, tratou da sua legitimidade como primeiro-ministro revertendo tudo o que podia tirar votos, por um lado - porque deixaram-lhe as condições para o fazer -, e, por outro, usando a "direita" como papão permanentemente ameaçador. Aí, a tropa de choque do radicalismo e do PC nas redacções, nas televisões e na rua amansada encarregou-se do resto. Adquirida a legitimidade eleitoral para governar sozinho, em minoria e em "relação aberta" com os parceiros, Costa passou a agir numa ecologia política única que Pulido Valente, por fim, apreciou: "não existe ninguém no PS nem no país que possa concorrer com António Costa". As "sondagens" concordam.

Vem isto a pretexto da longa entrevista que Costa concedeu a este jornal, ao "Diário de Notícias" e à TSF, no fim-de-semana. Apenas teme a pandemia que, evidentemente, nem ele nem ninguém controla. Mesmo assim, não tem uma palavra para o essencial da prevenção, daqui em diante, que é o domínio capaz e eficiente das fronteiras, sobretudo aeroportuárias, entretanto abertas. Só fala no SEF por causa da morte de um imigrante numas instalações do Estado no aeroporto de Lisboa. E no turismo, o maná pré-covid, que "há-de voltar".

O "plano de recuperação e resiliência"? É uma obra de arte em que fomos os "primeiros" a entregá-lo em Bruxelas, como se isso importasse para alguma coisa. A irrelevante presidência europeia? "Aprovámos a Lei do Clima" que era seguramente o que mais falta estava a fazer à Europa. Justiça? Nem lhe passa pela cabeça que o Tribunal Constitucional o contradiga. Ou a Assembleia da República porque, com Marcelo, existe "uma grande proximidade". E nem uma palavra sobre a vergonha do processo do "procurador europeu", ainda esta semana arrasado pelo PE. Rio, esse pobre diabo que intermitentemente o bajula, foi destratado sem dó nem piedade, como, aliás, faz por merecer todos os dias. Os ministros, sobretudo os mais nulos, acabaram poupados e até recomendados à pátria. "O ministro da Educação já bateu todos os recordes". De cretinice política? Não, de duração no cargo. Vale a pena ler a entrevista para perceber quem é, afinal, o "dono disto tudo".

Jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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